Curta-metragem brasileiro “Fã Número 1” ganha prêmio internacional na Espanha. História fala sobre o desejo de vingança, justiça, perdão e amor, entrelaçado com personagens memoráveis da trajetória do autor William Shakespeare

Dois cunhados se reencontram após três anos do assassinato de uma atriz, Nataly, que era o único elo que havia entre eles, e neste reencontro discutem questões como a vingança, perdão e personagens clássicos de Shakespeare. Esse é o mote principal de “Fã número 1”, produção brasileira que acaba de ganhar um prêmio internacional na Espanha. Dirigido por Elder Fraga, e com roteiro de Leonardo Granado, o curta-metragem de 20 minutos ganhou na categoria público, no 10º “Festival Internacional de Cine de Acción”, em Sevilha. O filme foi o único representante brasileiro inscrito na mostra. Em entrevista exclusiva ao blog “Desejo de viver”, Fraga e Granado comentaram sobre a importância de uma produção nacional ganhar destaque em outros países. “É uma vitória para o cinema brasileiro no maior festival de ação da Espanha. É uma visibilidade importante que mostra a força das nossas histórias”, destacou Fraga, que contabiliza o segundo prêmio no mesmo festival. Em 2018, o seu primeiro longa-metragem: “SP Crônicas de Uma Cidade Real”, foi premiado na categoria de “Melhor Efeitos Especiais”. Além da Espanha, o curta Fã Número 1 também vem conquistando sucesso em outros países. Nos EUA, recebeu uma “Menção Honrosa” no “SWIFF 2023”, que é uma plataforma global que abrange milhares de artistas de mais de 120 países. No Brasil, fez parte da sessão hors-concours no 9º “Santos Film Fest”, Festival Internacional de Santos.
Segundo o roteirista Leonardo Granado”, a história do “Fã Número 1”, nasceu justamente numa sala de cinema quando ele assistia ao filme “Jackie”. O longa, protagonizado pela atriz Natalie Portman, conta a história da ex-primeira dama americana Jacqueline Kennedy relembrando os dias que sucederam à morte de seu marido, John F. Kennedy, e durante os quais ela vive seus últimos dias no cargo. “Ao ver o sangue de Kennedy no corpo de Jacqueline aquilo ficou na minha cabeça, principalmente porque ela estava sentada no carro funerário com o caixão do seu marido no meio, conversando com o irmão sobre outros temas que não eram propícios para aquele momento. E foi aí que nasceu a ideia do roteiro. Eu acessei aquela história para criar a minha”, explica. Granado ressaltou que aquela imagem do sangue tão presente no filme Jackie fez com que ele desenvolvesse uma história de suspense onde uma personagem morre, e a partir de sua morte outras questões são levantadas, como a perda da fé de um padre ao ver sua irmã (Nataly) ser assassinada, e a busca por justiça. O roteiro foi escrito em 2016. “Prá mim, como roteirista, é um grande prazer receber essa premiação internacional porque prova que as pessoas estão gostando do nosso trabalho. A profissão de roteirista é muito solitária. Na maioria das vezes, a gente escreve sozinho, e ganhar um prêmio do público significa muito, pois sentimos que estamos no caminho certo”.
1) O filme se passa nos dias atuais? Qual a relação dele com Shakespeare? E qual a mensagem central da história?
Fraga: O filme se passa nos dias atuais. A Nataly (Niz Sousa), é uma atriz de grande sucesso no Brasil, casada com o Lucas (Ricardo Gelli) e irmã de João (Rogério Brito). Ela fez um grande sucesso no teatro quando interpretou Ofélia (uma das personagens memoráveis de Shakespeare). Foi o “boom” de sua carreira. Após sua morte, eles relembram os principais personagens que ela interpretou, e depois de três anos de luto, se reencontram para acertar as contas com o passado mal resolvido. Lucas procura João e dessa conversa eles falam sobre perdão, vingança e amor.
2) Onde aconteceram as gravações e quanto tempo elas duraram?
Fraga: As filmagens aconteceram em São Paulo. Nossa locação principal foi na cozinha do diretor de fotografia, Tomires Ribeiro, que pela primeira vez abriu sua casa para um set de gravação, pois era o ambiente ideal para gravação. Ele foi gravado em apenas três diárias- muito intensas-. Viramos literalmente as madrugadas, mas foi um set de gravação muito divertido apesar do tema pesado que o filme trata.
3) Qual o orçamento do curta? Vocês conseguiram ajuda ou apoio ou é totalmente independente?
Fraga: O filme só aconteceu por que três produtoras se uniram e bancaram o projeto: “Fraga Films” (Elder Fraga e Gabriela Wazlawick/ https://fragafilms.com.br/ ), “Primeiro Olho Filmes” (Tomires Ribeiro) e “Decimoitavo Produções” (Leonardo Granado). Convidamos vários profissionais da área técnica que toparam o desafio, além de um elenco com atores com experiência e com bons trabalhos, como o Ricardo Gelli (vencedor de um Kikito em Gramado), Rogério Brito ( com trabalhos na Globo e HBO), Niz Souza e Adriano Merlini.
4) O que significa pra vocês que são brasileiros ganharem um prêmio em um país que é referência em audiovisual, como a Espanha? E o que fazer para que o brasileiro consuma nossas produções locais ao invés de somente filmes estrangeiros?
Fraga: Esse é meu segundo prêmio no Festival Internacional de Cine de Acción. Antes, em 2018, fui premiado com o meu primeiro longa: “SP Crônicas de Uma Cidade Real”, na categoria de “Melhor Efeitos Especiais”. Apesar que não conhecer pessoalmente a Espanha sou um grande fã do cinema espanhol. Tive a sorte e a honra de ver de perto o grande cineasta Pedro Almodóvar na pré-estreia mundial do longa “Relatos Selvagens” em Cannes, em 2015, quando estive lá com meu curta “Os Bons Parceiros” sobre a obra do dramaturgo Plínio Marcos. O Almodóvar era produtor do Relatos. Acho que hoje em dia as produções brasileiras não devem nada para os filmes europeus e americanos. Nossos filmes sempre estão concorrendo nos maiores festivais do mundo como CANNES, Berlin, Veneza, Sundance entre outro. Nossa cultura sempre foi de consumir muitos filmes americanos, mas acho que nos últimos anos isso mudou muito.
5) Como você avalia a produção de cinema no Brasil e sua carreira no exterior? Você acredita que ficamos estigmatizados como um país que só faz comédias e histórias sobre violência urbana?
Fraga: A produção do cinema nacional teve uma queda muito grande nos últimos quatro anos sem apoio do último governo, com poucas produções estreando e ainda passamos por uma pandemia, mas olhando para frente, esse ano estamos tendo uma retomada muito forte, com apoio na cultura como a nova Lei Paulo Gustavo, Aldir Blanc, Proac e a nova Lei Rouanet. O Oscar, por exemplo, é um prêmio político e não tem investimento para uma campanha digna. Essa é uma reclamação muito grande dos diretores que são selecionados para a disputa no Brasil, mas isso não tem nada a ver com a qualidade dos nossos filmes. Olhando para o nosso cinema atual acho que mudou muito nos últimos anos. Temos produções de vários gêneros com filmes de terror, guerra, ficção cientifica, suspense, além de ótimos dramas, e vários produções de ação, gênero pouco explorado no país, e que o tema do meu filme atual. Vivemos um bom momento e acho que nesses próximos quatro anos nosso cinema estará muito forte.
6) Quem são suas referências no cinema e que filme marcou sua vida?
Fraga: Eu desde de criança sempre fui um cinéfilo que consumia de tudo, passava tardes dentro da sala escura vendo três filmes na sequência, mas claro que tenho os meus diretores preferidos, pois pesquiso muito a linguagem. O grande mestre da direção para mim sempre vai ser o genial Martin Scorsese. Ele é único e espero que ainda possa fazer muitos filmes. Também admiro muito os trabalhos do David Fincher, Christopher Nolan e do Denis Villeneuve. Gosto de estudar esses caras. Para mim, o filme da minha vida, acho que já assisti umas 20 vezes e ainda quero assistir muito ainda é “Os Bons Companheiros”, do Scorsese, uma obra prima. E se tivesse que apontar uma cena clássica dos cinemas, seria a final de “Seven”, do Fincher, na qual o ator Brad Pitt dá um verdadeiro show de interpretação.
7) Você tem uma longa experiência no cinema trabalhando em diferentes projetos. Também tem planos para a TV, teatro ou streaming?
Fraga: O teatro foi a minha primeira experiência nas artes. Me formei como ator em 1998 no INDAC, em São Paulo. Como ator, eu fiz 13 espetáculos, depois comecei a me dedicar à direção e produção. Foram 18 espetáculos no total. No cinema, atuei em 23 curtas e 13 longas trabalhando com grandes diretores como Helena Ignez (Luz nas Trevas – A Revolta de Luz Vermelha – 2010), Laís Bodanzky (Chega de Saudade – 2008), José Mojica Martins o Zé do Caixão (A Encarnação do Demônio – 2008), Roberto Moreira (Contra Todos – 2004), filme mais premiado do ano, entre outros. Na TV, eu fiz novelas como ator no SBT, Bandeirantes e Record, mas como diretor tenho planos de dirigir séries, algumas já em desenvolvimento.
8) Quais os próximos passos do Fã Número 1 e seus novos projetos além da divulgação do curta?
Fraga: No próximo dia 16 de julho (domingo), às 20h, o filme será exibido na Mostra Cine Guerrilha, no Cine Satyros Bijou (São Paulo). Fomos selecionados para o Festival “ONED UNBELIEVABLE”, que será realizado em dois países: primeiro em Beijing, na China, e depois em Toulouse, na França. Com relação aos meus novos projetos, os que posso falar nesse momento é o filme “Sobrevivi e Vou Contar”, sobre cinco sobreviventes da 2ª Guerra Mundial (está em fase de captação). E um segundo projeto, que vai se chamar, “Ninguém é Campeão Sozinho” e que contará a vida do goleiro Lala, do Santos, que jogou no “time mágico” ao lado de Pelé, Pepe e Coutinho.






One Comment
Patricia Borges
André Luis, você se supera a cada dia que passa!
Um excelente escritor, roteirista excepcional e jornalista fora de série!
Parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido!