Entre fronteiras e resistência: a trajetória de Thiago Silva em Portugal

“Ninguém nunca fez mais por mim do que eu mesmo.” A frase de Thiago Silva dos Santos não é apenas um desabafo — é um manifesto. Brasileiro, negro, gay, de origem humilde e imigrante na Europa, o jovem brasileiro de apenas 26 anos, carrega no corpo e na trajetória, as marcas de uma luta diária contra o preconceito e a exclusão. Em Portugal, um dos países europeus que mais registra episódios de xenofobia, Santos transformou resistência em voz e conquistou espaço em um dos mercados mais competitivos da atualidade: o da comunicação e do entretenimento.
Conhecido como “Thiago Gloss”, apelido que nasceu como brincadeira e virou identidade, o publicitário, jornalista e influenciador brasileiro construiu, pouco a pouco, uma carreira que hoje o coloca em evidência no cenário cultural português, sendo reconhecido por artistas que o procuram para divulgar seus projetos. Nesta entrevista exclusiva ao ´portal Desejo de viver , ele fala sobre imigração, preconceito, sonhos e o privilégio — conquistado — de ser protagonista da própria história. “Até aqui, foi uma caminhada com espinhos pelo caminho. Nada veio fácil. Fui resiliente, corajoso e nunca desisti de lutar. Esse é o segredo em qualquer área de nossas vidas, mas a luta é constante”.
De origem muito pobre, Santos se orgulha ao revisitar seu passado no interior do Paraná e relembrar todas as dificuldades que enfrentou, mas que o tornaram ainda mais forte. Ele conta que, na infância e adolescência, catou latinhas nas ruas, vendeu sorvete, fez faxina, passou roupas, trabalhou em lanchonetes e cresceu em meio às drogas e ao álcool, em uma família na qual poucos tiveram a oportunidade de estudar e buscar um futuro melhor. “Deus sempre foi minha melhor companhia, mas eu tinha muita fé de que tudo ia mudar e isso me manteve de pé. Meus colegas tinham roupas boas, calçados novos, e eu muitas vezes nem tinha roupa de frio para ir à escola, mas nada me fazia desistir. Eu lutei muito para não seguir caminhos diferentes quando tudo me apontava o contrário”.
Sua situação de vulnerabilidade social mudou aos 16 anos quando foi convidado por uma tia para viver em Joaçaba, no interior de Santa Catarina. Lá, ajudava nas tarefas de casa, mas também realizava trabalhos externos. Nessa época, foi convidado pelo Ministério Público de Santa Catarina para ministrar palestras em diferentes lugares do Brasil sobre trabalho infantil. “Contar minha história para outras pessoas e ajudar na disseminação desse tema passou a ser minha missão de vida, e isso me levou a conhecer grande parte do Brasil”, destaca.
Outro desafio ainda maior surgiu na época da faculdade. Aprovado em uma universidade particular, ele tinha o sonho de estudar comunicação, mas sem dinheiro precisou se desdobrar em diferentes trabalhos para pagar as mensalidades até conseguir uma bolsa — sem sequer imaginar que sua entrada naquele curso seria decisiva para a mudança de sua vida. “No terceiro ano, apareceu a oportunidade de concluir meus estudos em Portugal, por meio de um programa de intercâmbio. E foi assim que minha vida deu um salto de 360 graus”.
Uma das grandes incentivadoras de Santos nessa fase, apontada por ele como sua madrinha profissional, foi a professora Vanessa Balestrin, da Universidade do Oeste de Santa Catarina (Unoesc), que destaca seu espírito aguerrido e persistente. “Ele é daqueles estudantes que deixam marcas positivas por onde passam. A decisão dele de morar em outro país representou muito mais do que uma mudança geográfica. Foi também uma oportunidade de ampliar horizontes, conhecer um novo mundo, novas culturas e formas de ver a vida. Sua dedicação, maturidade e vontade de evoluir são admiráveis e inspiram todos que tiveram a oportunidade de acompanhá-lo nessa caminhada. Sem dúvida, Thiago carrega consigo um futuro promissor, construído com esforço, aprendizado e muita coragem”.
Antes de Portugal, da visibilidade e das entrevistas com artistas, quem era o Thiago no Brasil?
SILVA: Venho de uma realidade muito humilde. Sempre tive muita curiosidade pelo mundo, pelas pessoas e pelas histórias. Mesmo sem condições financeiras, eu já sonhava alto. Sempre soube que queria mais do que o que parecia possível para mim. Eu tinha todas as estatísticas desfavoráveis pesando contra e poderia ter perfeitamente tomado o caminho das drogas ou da bebida porque era o ambiente que fui criado, mas eu quis seguir um caminho diferente.
O desejo de sair do Brasil surgiu cedo?
SANTOS: Sim. Aos 16 anos fiz cursos de liderança juvenil pelo Rotary Club, em Santa Catarina, e convivi com intercambistas do mundo inteiro. Aquilo abriu minha cabeça. Eu queria fazer intercâmbio, mas não tinha condições financeiras. Mais tarde, já na faculdade, consegui participar de um programa de mobilidade internacional e foi assim que cheguei a Portugal, em 2019, para estudar em Setúbal. Todos os custos desta viagem foram pagos por mim com muita luta e trabalho de segunda a segunda.
Você sentiu que precisou provar mais do que os outros para ser levado a sério?
SANTOS: Isso acontece o tempo todo. Quando as oportunidades não vêm, a gente precisa criá-las. E, muitas vezes, temos que mostrar o dobro do nosso trabalho e da nossa potência para ser vistos como capazes.
A imigração costuma ser romantizada. Qual foi o primeiro choque de realidade?
SANTOS: O visto foi um processo duríssimo. Cheguei a receber a aprovação apenas 12 horas antes do embarque, depois de mais de cinco meses de espera. Foi tenso. Mas, quando cheguei, mesmo morando na residência universitária, eu estava cheio de esperança. Conviver com pessoas de diferentes países foi algo transformador. Logo, também comecei a lutar por trabalho e fui aceitando todas as oportunidades que foram aparecendo.
Em algum momento pensou em desistir e voltar ao Brasil?
SANTOS: Nunca cheguei a esse ponto. Sinto muita falta do Brasil — da energia, da comida, dos amigos. A distância dói psicologicamente. Mas, viajando o mundo, comecei a olhar mais para Portugal e me apaixonei. Sou muito grato pelas oportunidades que tive aqui.
Você já sofreu preconceito direto ou velado?
SANTOS: Sim. Pela sexualidade, pela cor, pela forma de vestir, por ser imigrante e brasileiro. Tento não deixar isso me afetar, mas quando acontece com outras pessoas, o desejo de justiça fala mais alto.
Existe uma linha invisível entre o “brasileiro bem-vindo” e o “brasileiro tolerado”?
SANTOS: Prefiro pensar que existem brasileiros com objetivos diferentes. Alguns vêm para ostentar uma vida de aparência; outros vêm para trabalhar, mudar de vida e realizar sonhos. Estar aqui exige foco, resiliência e maturidade emocional. Essa questão é muito delicada porque estamos falando de pessoas, desejos, frustrações, desafios. Estar aqui é desafiador, é necessário. Portugal é muito delicado e nós comparamos muito com outros países, mas até que a gente não mude a nossa situação atual temos que comparar apenas com nós mesmos. O que preciso mudar em mim? O que faço para ser melhor no que já faço? Como posso progredir? Acredito que é nisso que temos que direcionar nossas energias.
Você sentiu que precisou se moldar para caber melhor?
SANTOS: Nunca. Sempre respeitei os espaços e entendi que cada ambiente exige uma postura, mas minha essência é a mesma com qualquer pessoa — rica, pobre, famosa ou não.
Ser um influencer assumidamente gay te trouxe mais barreiras ou mais força?
SANTOS: Se trouxe barreiras, eu não percebi. Hoje acredito que meus conteúdos inspiram jovens a não desistirem dos seus sonhos. Mostrar que é possível já é um ato potente.
Quando o “Thiago Gloss” deixou de ser brincadeira? O humor foi um caminho que você tomou ou algo que já pertencia à sua personalidade ?
SANTOS: Essa coisa do Gloss nunca virou exatamente uma marca, mas ficou na boca do povo. Às vezes alguém grita na rua: “Olha o Thiago Gloss!”. Eu fico feliz, porque admiro muito o Hugo Gloss. Ainda estou aprendendo a lidar com isso. Com relação ao humor isso é meu. Eu nasci com isso. Ver alguém sorrir com minhas histórias me traz paz. Me comunicar, brincar e divertir é algo muito natural para mim.
Existe diferença entre o Thiago das redes sociais e o fora das câmeras?
SANTOS: O Thiago das redes é o resultado. O de fora é o desenvolvimento. Fora das câmeras continuo sendo eu, mas com mais responsabilidade. Se tivesse que escolher, ficaria com o Thiago fora do ar, pois ele vive intensamente.
Das entrevistas que você já fez qual te marcou? E qual entrevistado dos seus sonhos?
SANTOS Busco boas perguntas, que deixem o artista confortável e feliz em responder. Quando isso acontece, a conversa flui. Com a Luana Piovani, por exemplo, foi assim. Tivemos uma conexão além da entrevista. Ela me viu como alguém de verdade, não só como um entrevistador. Foi leve, natural e muito especial. Sem dúvida, gostaria de entrevistar aAnitta. Admiro muito a força, o foco e a determinação dela. Ela planeja, executa e não desiste. Isso me inspira profundamente. Já fui algumas vezes ao seu show e de sentir a força que ela tem, a energia em querer lutar e conquistar. O foco em ação, determinação em planejar e executar. Isso para mim é fantástico, e ela também conquistou tudo por mérito próprio.

Você se define como jornalista, influencer ou publicitário?
SANTOS: Sou formado em Comunicação Social, Publicidade e Propaganda. É uma área ampla. Eu me vejo como comunicador — de um jeito ou de outro, estarei sempre me comunicando. Fiz publicidade no Brasil e um ano de jornalismo em Portugal.
Onde você quer chegar profissionalmente? Como é o seu processo de trabalho em Portugal? Como você chega até os artistas?
SANTOS: Desde criança sonho com televisão. Também tenho projetos autorais: documentários, livros. As entrevistas dependem muito do conceito, tempo e a assunto em si. Mas geralmente é muito tranquilo a comunicação com a equipe de imprensa porque eu atualmente tenho entrevistado mais com intuito de ajudar nas divulgações dos eventos e da vinda deles a Portugal. Então já é uma ação conjunta com o mesmo interesse. Existe minha intenção de entrevistá-los; e por outro lado, eles desejam divulgar seus projetos pessoais.
Hoje você se sente mais brasileiro, português ou cidadão do mundo? Que conselho você daria a quem sonha em viver fora?
SANTOS: Sou do mundo. Já conheci 34 países e 15 estados do Brasil. Saber de onde saí e onde cheguei me enche de orgulho. Sair da zona de conforto dá medo, mas é necessário. Se Portugal ou qualquer outro país está no seu caminho, vá sem medo. Acreditar em si é o principal combustível.
O sucesso cura feridas antigas?
SANTOS Não é o sucesso. Somos nós e como levamos nossa vida. Por isso, a saúde mental é fundamental para enfrentar os processos. Eu nunca fiquei olhando o meu passado, culpando a falta de amor da minha família ou as coisas que eu tive de enfrentar, pelo contrário, eu sempre lutei pra fazer a minha história diferente e creio que é por isso que me orgulho tanto de minha trajetória como imigrante e de tudo o que conquistei e ainda quero conquistar.
Como é hoje sua rotina de trabalho?
SANTOS: Não tenho horários disciplinados, mas trabalho todos os dias, seja editando material em casa, desenvolvendo projetos ou participando de eventos em Portugal e em outros países, como feiras de turismo, por exemplo.

VERSATILIDADE É A SUA MARCA COMO ENTREVISTADOR










