{"id":187,"date":"2023-03-28T10:56:11","date_gmt":"2023-03-28T13:56:11","guid":{"rendered":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/?p=187"},"modified":"2023-04-26T20:04:37","modified_gmt":"2023-04-26T23:04:37","slug":"diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 2"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"340\" height=\"480\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-2-1.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-318\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-2-1.png 340w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-2-1-213x300.png 213w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Um complexo e um trauma de adolesc\u00eancia foram os respons\u00e1veis pela minha &#8220;fuga&#8221; do Brasil e a tentativa de um recome\u00e7o em Portugal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 minha s\u00e9rie &#8220;<strong>Di\u00e1rio de um imigrante&#8221;<\/strong>&nbsp;no relato de hoje vou contar, em detalhes, porque isso \u00e9 importante para que entendam o contexto da minha trajet\u00f3ria, a principal raz\u00e3o que me levou a sair do Brasil e me mudar para Portugal pela primeira vez- eu voltaria anos depois para viver de novo e em uma situa\u00e7\u00e3o totalmente diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>Era setembro de 2001. Assim que passei pela imigra\u00e7\u00e3o no aeroporto de Lisboa e cruzei a porta para o sagu\u00e3o principal eu sabia que n\u00e3o havia mais volta. Eu estava fora do Brasil, distante da minha fam\u00edlia e dos meus amigos, e a partir daquele momento era importante ter consci\u00eancia que mais do que nunca eu seria respons\u00e1vel pelas minhas a\u00e7\u00f5es e teria que estar preparado para as consequ\u00eancias. No Brasil eu tinha o amparo da minha fam\u00edlia. Agora era diferente. A lei da sobreviv\u00eancia batia forte, e eu sabia que minha primeira a\u00e7\u00e3o era ir ao banheiro e me libertar daquele problema que me afligia h\u00e1 anos. Era por essa raz\u00e3o que eu havia viajado e se n\u00e3o tivesse coragem de fazer aquilo ali no banheiro, ou seja, de libertar-me daquele peso naquele instante eu n\u00e3o teria for\u00e7as para faz\u00ea-lo depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Pois bem: vamos aos fatos! At\u00e9 2001 eu j\u00e1 havia cogitado fazer algum interc\u00e2mbio de idiomas no exterior, pois sonhava em conhecer culturas diferentes e ter uma nova experi\u00eancia de vida. Nessa \u00e9poca, eu era praticamente um rec\u00e9m- formado jornalista em in\u00edcio de carreira. Amava minha profiss\u00e3o,&nbsp;mas quando decidi imigrar n\u00e3o foi exatamente buscando um novo trabalho na \u00e1rea. Eu sa\u00ed do Brasil porque precisava me aceitar como eu era e se eu n\u00e3o fizesse isso n\u00e3o conseguiria avan\u00e7ar em nenhum campo de minha vida, principalmente o profissional.<\/p>\n\n\n\n<p>Explico: aos 17, 18 anos, comecei a perder cabelo de uma forma muito acelerada e isso foi me deixando reprimido e frustrado. J\u00e1 come\u00e7avam os coment\u00e1rios maldosos: \u201cih, t\u00e1 ficando careca\u201d, \u201cmelhor voc\u00ea passar uma m\u00e1quina zero porque n\u00e3o adianta disfar\u00e7ar\u201d. E assim por diante. Para muitos isso pode parecer uma besteira, algo f\u00fatil ou muito pequeno diante de tantos outros problemas mais s\u00e9rios, mas n\u00e3o para um adolescente ainda tentando se firmar, cheio de d\u00favidas e de incertezas- que somente mais pr\u00e1 frente foram desvendadas-. Ent\u00e3o, sem outro caminho passei a usar bon\u00e9s. Eles eram como uma \u201cmuleta\u201d para mim. Eu n\u00e3o saia do meu quarto sem estar com eles. Ningu\u00e9m me via sem bon\u00e9 nem mesmo os meus pais e minha irm\u00e3. Era algo que me machucava no fundo da alma. Na hora que ia dormir colocava ao lado do travesseiro e fechava a porta com medo que algu\u00e9m entrasse. Eu mesmo n\u00e3o conseguia me olhar no espelho. Tomava banho e trocava de roupa no banheiro, escovava os dentes sem olhar no espelho, tamanho era o meu complexo. S\u00f3 saia com o bon\u00e9 na cabe\u00e7a. Nem mesmo na hora das refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia eu retirava.<\/p>\n\n\n\n<p>Nessa \u00e9poca, eu s\u00f3 conseguia me olhar quando estava de bon\u00e9 e mesmo assim era um olhar triste e vazio, pois eu sentia que me faltava algo. Evitava ir a lugares onde sabia que teria que ficar sem bon\u00e9, como piscina e praias, por exemplo. Uma \u00fanica vez decidi desafiar esse complexo e fui com meus amigos acampar. O lugar era lindo, cheio de piscinas e cachoeiras. Eu evitava ir na mesma hora que eles para a piscina e quando ia n\u00e3o tirava o bon\u00e9 nem mesmo dentro da piscina. N\u00e3o afundava a cabe\u00e7a para n\u00e3o ter que tir\u00e1-lo. Hoje me recordo disso e vejo como era algo forte e espiritual e que me impedia de ser feliz justamente numa das fases que estava despertando para a sexualidade e onde era normal todos se arrumarem para as \u201cfestinhas\u201d passando gel no cabelo, mudando o penteado e eu n\u00e3o tinha o que fazer.<\/p>\n\n\n\n<p>Se eu fosse \u00e0s festas, corria o risco de algu\u00e9m arranc\u00e1-lo de minha cabe\u00e7a, por isso, comecei a me isolar socialmente. &nbsp;Deixei de ir a todas as festas, anivers\u00e1rios e at\u00e9 casamento de familiares por complexo. Tinha uma prima que eu gostava muito, uma das minhas preferidas, e eu n\u00e3o fui ao seu casamento por n\u00e3o querer usar bon\u00e9. Isso me machucou muito.  E quando cheguei \u00e0 faculdade eu tive que me abrir um pouco mais para o mundo, mas engana-se quem pensa que eu me soltei completamente. Sempre fui um excelente aluno, j\u00e1 amava minha profiss\u00e3o, mas continuava me escondendo por tr\u00e1s de um acess\u00f3rio. S\u00f3 que eu sabia que se quisesse terminar o meu curso eu teria que, obrigatoriamente, cursar uma das disciplinas da grade: TV. Todo curso de jornalismo passa por essa disciplina e as aulas pr\u00e1ticas incluem grava\u00e7\u00f5es de reportagens. N\u00e3o pegava bem fazer uma grava\u00e7\u00e3o com bon\u00e9, sem contar que minha professora tamb\u00e9m n\u00e3o aceitaria. Eu precisava tomar uma decis\u00e3o r\u00e1pida, j\u00e1 que as aulas pr\u00e1ticas de TV estavam chegando e seriam no terceiro ano da faculdade.<\/p>\n\n\n\n<p>E foi assim que recorri \u00e0s pr\u00f3teses capilares- naquela \u00e9poca muito artificiais e feitas com uma t\u00e9cnica dolorosa-. Eles amarravam o restante dos cabelos da pessoa com a pr\u00f3tese e &nbsp;iam costurando os fios. Durava mais ou menos um m\u00eas e logo os fios come\u00e7avam a se soltar e era preciso fazer uma manuten\u00e7\u00e3o. Mesmo a contragosto eu acabei optando por elas. Eu n\u00e3o estava feliz. Eu sabia que as pessoas por tr\u00e1s iam comentar que eu estava usando peruca e o complexo era t\u00e3o maldito que, na minha cabe\u00e7a, qualquer pessoa que me olhasse por mais de dois segundos era porque estava olhando para minha peruca. Esse foi um processo bastante doloroso e de muitas etapas diferentes, mas consegui me formar com louvor na faculdade e at\u00e9 um dos meus melhores trabalhos na universidade foi como apresentador de um programa de TV, e tudo isso usando aquele acess\u00f3rio estranho, mas que serviu por muitos anos para n\u00e3o me deixar enclausurado dentro de casa.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Para quem chegou at\u00e9 aqui deve estar se perguntando: mas o que tudo isso, esse relato emocional e pessoal tem a ver com imigra\u00e7\u00e3o e com Portugal? TUDOOOO.<\/strong>&nbsp;Sabe por qu\u00ea ? Porque foi justamente para me livrar das perucas que eu decidi sair do pa\u00eds. Loucura, n\u00e3o? Precisava ir t\u00e3o longe para se libertar de um problema pessoal com tantas cidades no Brasil? &nbsp;Se voc\u00ea me fizesse essa pergunta hoje eu diria que n\u00e3o e que eu estava louco, mas somente eu sabia no meu \u00edntimo como tudo aquilo havia me machucado nos \u00faltimos anos. Foi um ato desesperador e um pedido de socorro.<\/p>\n\n\n\n<p>E o ponto de virada para essa decis\u00e3o foi um churrasco de fam\u00edlia. Era Carnaval. Fam\u00edlia e amigos reunidos numa ch\u00e1cara para passar os quatro dias de festa. Cen\u00e1rio perfeito para a minha \u201ctrag\u00e9dia pessoal\u201d. Eu havia bebido um pouco mais da conta- isso porque n\u00e3o gosto de beber-, e no primeiro mergulho com a piscina lotada de pessoas, o golpe fatal: a peruca saiu da minha cabe\u00e7a e ficou boiando. Quando eu percebi j\u00e1 n\u00e3o tinha mais o que fazer. Eu estava t\u00e3o envergonhado que n\u00e3o tinha coragem de sair da \u00e1gua. Minha cabe\u00e7a estava afundada como a de uma tartaruga dentro do seu casco. Lembro que um primo sabendo o quanto aquele assunto me perturbava tratou de mergulhar para \u201cresgatar\u201d a peruca e a colocou na minha cabe\u00e7a de qualquer jeito. Em seguida me deu um bon\u00e9 para que eu me sentisse mais seguro e pudesse ao menos sair da piscina.<\/p>\n\n\n\n<p>A sensa\u00e7\u00e3o que eu tinha era de uma cena de um filme em c\u00e2mera lenta na qual todos os personagens em diferentes pontos do cen\u00e1rio me olhavam para saber qual seria minha pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o desse meu primo ningu\u00e9m mais teve coragem de se aproximar de mim porque eles sabiam que eu n\u00e3o lidava bem com o assunto.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que sa\u00ed da \u00e1gua fui correndo para um banheiro e pedi para que chamassem meu pai. Quando ele chegou na porta eu estava aos prantos e supliquei para que me tirasse dali e me levasse para casa. Eu n\u00e3o suportaria encarar de frente meus amigos e familiares. Meu maior segredo que, na verdade, n\u00e3o era segredo, havia sido revelado e todos agora me conheciam sem peruca.<\/p>\n\n\n\n<p>Fiquei sabendo depois que minha m\u00e3e naquela tarde sabendo do meu sofrimento fez a promessa de n\u00e3o comer doces por um tempo caso eu retornasse para a festa, e eu sei que para ela era muito dif\u00edcil cumprir isso, mas amor de m\u00e3e \u00e9 incompar\u00e1vel. Elas s\u00e3o capazes de tudo por um filho, e n\u00e3o sei se foi pela f\u00e9 dela, mas milagrosamente eu tive coragem de voltar horas depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Durante esse per\u00edodo todo que fiquei usando as pr\u00f3teses, principalmente as \u00faltimas que eram mais modernas e coladas com adesivos ao inv\u00e9s de amarradas, a \u00fanica pessoa que havia me visto e que me ajudava coloc\u00e1-las era minha irm\u00e3, Isabela, e mesmo assim, eu tinha dificuldade de encar\u00e1-la de frente, mas ela era o meu anjo na terra e acabei me tornando muito dependente da sua ajuda. Sexta-feira \u00e0 tarde era o dia que ela renovava os adesivos e eu me sentia ao menos mais protegido por uma semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele fat\u00eddico dia ela me abra\u00e7ou muito e disse que todos estavam muito tristes com minha sa\u00edda da festa e que o Carnaval acabaria ali caso eu n\u00e3o voltasse porque n\u00e3o teria l\u00f3gica eles continuarem a festa enquanto um estaria em casa sofrendo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de muita insist\u00eancia dela e do meu pai acabei voltando para a festa, mas eu sabia que isso seria temporal. Meses depois aconteceu de novo e foi ainda pior: a pr\u00f3tese caiu numa discoteca e eu havia bebido muito (bebia como fuga) e meus amigos me encontraram deitado na cal\u00e7ada e me levaram para um pronto- socorro onde me deram inje\u00e7\u00e3o de glicose e amarraram um len\u00e7ol na minha cabe\u00e7a para que eu chegasse em casa . Era madrugada e quando meu pai me viu chegando em casa daquele jeito levou \u00e0s m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a pensando que eu havia sofrido um acidente.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o havia sido um acidente, mas foi o ponto determinante para que eu tomasse uma decis\u00e3o radical: quero sair daqui por um tempo e tentar me libertar disso sozinho.&nbsp;<\/strong>Coincidentemente nessa \u00e9poca eu tinha um amigo que havia se mudado para Portugal e que sabia de tudo o que havia acontecido comigo na ch\u00e1cara e na discoteca. Vendo a minha ang\u00fastia ele me fez o convite certeiro: \u201cPor qu\u00ea voc\u00ea n\u00e3o vem para Portugal e tenta se libertar disso? Aqui voc\u00ea n\u00e3o conhece ningu\u00e9m e se voc\u00ea quiser eu te evito no come\u00e7o at\u00e9 voc\u00ea se acostumar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava t\u00e3o desesperado que n\u00e3o pensei duas vezes. Eu disse que iria. Em menos de 15 dias estava com a passagem comprada. No entanto, mais uma vez, o destino se encarregou de pregar uma de suas pe\u00e7as em minha trajet\u00f3ria. Ironicamente ou n\u00e3o colocou no meu caminho depois de muitos anos a \u00fanica pessoa que eu havia amado em toda minha vida at\u00e9 aquele momento. Era um amor de adolescente, uma paix\u00e3o arrebatadora que levei para a vida adulta, mas era um sonho proibido porque ela havia se casado e tinha dois filhos.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar disso eu sempre me perguntava como seria caso a gente se reencontrasse um dia. E, novamente, o senhor destino decidiu me testar colocando-a no meu caminho a poucos dias da minha viagem. Ela apareceu subitamente, come\u00e7ou a me ligar, dizia que estava infeliz no casamento, que ainda me amava e que havia casado por car\u00eancia e n\u00e3o por amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas existia dois bloqueios importantes nesse reencontro: ela ainda estava casada, mas queria me reencontrar antes da minha ida \u00e0 Portugal e n\u00e3o tinha coragem (eu n\u00e3o havia contado o real motivo da viagem). Por outro lado, eu n\u00e3o tinha peito e estrutura para rev\u00ea-la depois de tantos anos e confessar que usava peruca.<\/p>\n\n\n\n<p>Qual o final desta hist\u00f3ria? Voc\u00eas creem que a D\u00e9a e eu nos encontramos? Em caso positivo, eu contei para ela toda verdade sobre a minha viagem? Como foi esse reencontro? Ou ser\u00e1 que eu viajei direto para Portugal deixando esse amor sepultado no passado? Como foi que me libertei da pr\u00f3tese e recomecei uma nova vida em Portugal? Tudo isso e um pouco mais ser\u00e3o os temas do terceiro epis\u00f3dio da s\u00e9rie&nbsp;<strong>Di\u00e1rio de um imigrante. &nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Dando sequ\u00eancia \u00e0 minha s\u00e9rie &#8220;Di\u00e1rio de um imigrante&#8221;&nbsp;no relato de hoje vou contar, em detalhes, porque isso \u00e9 importante para que entendam o contexto da minha trajet\u00f3ria, a principal raz\u00e3o que me levou a sair do Brasil e me mudar para Portugal pela primeira vez- eu voltaria anos depois para viver de novo e em uma situa\u00e7\u00e3o totalmente diferente. Era setembro de 2001. Assim que passei pela imigra\u00e7\u00e3o no aeroporto de Lisboa e cruzei a porta para o sagu\u00e3o principal eu sabia que n\u00e3o havia mais volta. Eu estava fora do Brasil, distante da minha fam\u00edlia e dos meus amigos, e a partir daquele momento era importante ter consci\u00eancia que mais do que nunca eu seria respons\u00e1vel pelas minhas a\u00e7\u00f5es e teria que estar preparado para as consequ\u00eancias. No Brasil eu tinha o amparo da minha fam\u00edlia. Agora era diferente. A lei da sobreviv\u00eancia batia forte, e eu sabia que minha primeira a\u00e7\u00e3o era ir ao banheiro e me libertar daquele problema que me afligia h\u00e1 anos. Era por essa raz\u00e3o que eu havia viajado e se n\u00e3o tivesse coragem de fazer aquilo ali no banheiro, ou seja, de libertar-me daquele peso naquele instante eu n\u00e3o teria for\u00e7as para faz\u00ea-lo depois. Pois bem: vamos aos fatos! At\u00e9 2001 eu j\u00e1 havia cogitado fazer algum interc\u00e2mbio de idiomas no exterior, pois sonhava em conhecer culturas diferentes e ter uma nova experi\u00eancia de vida. Nessa \u00e9poca, eu era praticamente um rec\u00e9m- formado jornalista em in\u00edcio de carreira. Amava minha profiss\u00e3o,&nbsp;mas quando decidi imigrar n\u00e3o foi exatamente buscando um novo trabalho na \u00e1rea. Eu sa\u00ed do Brasil porque precisava me aceitar como eu era e se eu n\u00e3o fizesse isso n\u00e3o conseguiria avan\u00e7ar em nenhum campo de minha vida, principalmente o profissional. Explico: aos 17, 18 anos, comecei a perder cabelo de uma forma muito acelerada e isso foi me deixando reprimido e frustrado. J\u00e1 come\u00e7avam os coment\u00e1rios maldosos: \u201cih, t\u00e1 ficando careca\u201d, \u201cmelhor voc\u00ea passar uma m\u00e1quina zero porque n\u00e3o adianta disfar\u00e7ar\u201d. E assim por diante. Para muitos isso pode parecer uma besteira, algo f\u00fatil ou muito pequeno diante de tantos outros problemas mais s\u00e9rios, mas n\u00e3o para um adolescente ainda tentando se firmar, cheio de d\u00favidas e de incertezas- que somente mais pr\u00e1 frente foram desvendadas-. Ent\u00e3o, sem outro caminho passei a usar bon\u00e9s. Eles eram como uma \u201cmuleta\u201d para mim. Eu n\u00e3o saia do meu quarto sem estar com eles. Ningu\u00e9m me via sem bon\u00e9 nem mesmo os meus pais e minha irm\u00e3. Era algo que me machucava no fundo da alma. Na hora que ia dormir colocava ao lado do travesseiro e fechava a porta com medo que algu\u00e9m entrasse. Eu mesmo n\u00e3o conseguia me olhar no espelho. Tomava banho e trocava de roupa no banheiro, escovava os dentes sem olhar no espelho, tamanho era o meu complexo. S\u00f3 saia com o bon\u00e9 na cabe\u00e7a. Nem mesmo na hora das refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia eu retirava. Nessa \u00e9poca, eu s\u00f3 conseguia me olhar quando estava de bon\u00e9 e mesmo assim era um olhar triste e vazio, pois eu sentia que me faltava algo. Evitava ir a lugares onde sabia que teria que ficar sem bon\u00e9, como piscina e praias, por exemplo. Uma \u00fanica vez decidi desafiar esse complexo e fui com meus amigos acampar. O lugar era lindo, cheio de piscinas e cachoeiras. Eu evitava ir na mesma hora que eles para a piscina e quando ia n\u00e3o tirava o bon\u00e9 nem mesmo dentro da piscina. N\u00e3o afundava a cabe\u00e7a para n\u00e3o ter que tir\u00e1-lo. Hoje me recordo disso e vejo como era algo forte e espiritual e que me impedia de ser feliz justamente numa das fases que estava despertando para a sexualidade e onde era normal todos se arrumarem para as \u201cfestinhas\u201d passando gel no cabelo, mudando o penteado e eu n\u00e3o tinha o que fazer. Se eu fosse \u00e0s festas, corria o risco de algu\u00e9m arranc\u00e1-lo de minha cabe\u00e7a, por isso, comecei a me isolar socialmente. &nbsp;Deixei de ir a todas as festas, anivers\u00e1rios e at\u00e9 casamento de familiares por complexo. Tinha uma prima que eu gostava muito, uma das minhas preferidas, e eu n\u00e3o fui ao seu casamento por n\u00e3o querer usar bon\u00e9. Isso me machucou muito. E quando cheguei \u00e0 faculdade eu tive que me abrir um pouco mais para o mundo, mas engana-se quem pensa que eu me soltei completamente. Sempre fui um excelente aluno, j\u00e1 amava minha profiss\u00e3o, mas continuava me escondendo por tr\u00e1s de um acess\u00f3rio. S\u00f3 que eu sabia que se quisesse terminar o meu curso eu teria que, obrigatoriamente, cursar uma das disciplinas da grade: TV. Todo curso de jornalismo passa por essa disciplina e as aulas pr\u00e1ticas incluem grava\u00e7\u00f5es de reportagens. N\u00e3o pegava bem fazer uma grava\u00e7\u00e3o com bon\u00e9, sem contar que minha professora tamb\u00e9m n\u00e3o aceitaria. Eu precisava tomar uma decis\u00e3o r\u00e1pida, j\u00e1 que as aulas pr\u00e1ticas de TV estavam chegando e seriam no terceiro ano da faculdade. E foi assim que recorri \u00e0s pr\u00f3teses capilares- naquela \u00e9poca muito artificiais e feitas com uma t\u00e9cnica dolorosa-. Eles amarravam o restante dos cabelos da pessoa com a pr\u00f3tese e &nbsp;iam costurando os fios. Durava mais ou menos um m\u00eas e logo os fios come\u00e7avam a se soltar e era preciso fazer uma manuten\u00e7\u00e3o. Mesmo a contragosto eu acabei optando por elas. Eu n\u00e3o estava feliz. Eu sabia que as pessoas por tr\u00e1s iam comentar que eu estava usando peruca e o complexo era t\u00e3o maldito que, na minha cabe\u00e7a, qualquer pessoa que me olhasse por mais de dois segundos era porque estava olhando para minha peruca. Esse foi um processo bastante doloroso e de muitas etapas diferentes, mas consegui me formar com louvor na faculdade e at\u00e9 um dos meus melhores trabalhos na universidade foi como apresentador de um programa de TV, e tudo isso usando aquele acess\u00f3rio estranho, mas que serviu por muitos anos para n\u00e3o me deixar enclausurado dentro de casa. Para quem chegou at\u00e9 aqui deve estar se perguntando: mas o que tudo isso, esse relato emocional e pessoal tem a ver com imigra\u00e7\u00e3o e com Portugal? TUDOOOO.&nbsp;Sabe por qu\u00ea ? Porque foi justamente para me livrar das perucas que eu decidi sair do pa\u00eds. Loucura, n\u00e3o? Precisava ir t\u00e3o longe para se libertar de um problema pessoal com tantas cidades no Brasil? &nbsp;Se voc\u00ea me fizesse essa pergunta hoje eu diria que n\u00e3o e que eu estava louco, mas somente eu sabia no meu \u00edntimo como tudo aquilo havia me machucado nos \u00faltimos anos. Foi um ato desesperador e um pedido de socorro. E o ponto de virada para essa decis\u00e3o foi um churrasco de fam\u00edlia. Era Carnaval. Fam\u00edlia e amigos reunidos numa ch\u00e1cara para passar os quatro dias de festa. Cen\u00e1rio perfeito para a minha \u201ctrag\u00e9dia pessoal\u201d. Eu havia bebido um pouco mais da conta- isso porque n\u00e3o gosto de beber-, e no primeiro mergulho com a piscina lotada de pessoas, o golpe fatal: a peruca saiu da minha cabe\u00e7a e ficou boiando. Quando eu percebi j\u00e1 n\u00e3o tinha mais o que fazer. Eu estava t\u00e3o envergonhado que n\u00e3o tinha coragem de sair da \u00e1gua. Minha cabe\u00e7a estava afundada como a de uma tartaruga dentro do seu casco. Lembro que um primo sabendo o quanto aquele assunto me perturbava tratou de mergulhar para \u201cresgatar\u201d a peruca e a colocou na minha cabe\u00e7a de qualquer jeito. Em seguida me deu um bon\u00e9 para que eu me sentisse mais seguro e pudesse ao menos sair da piscina. A sensa\u00e7\u00e3o que eu tinha era de uma cena de um filme em c\u00e2mera lenta na qual todos os personagens em diferentes pontos do cen\u00e1rio me olhavam para saber qual seria minha pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o desse meu primo ningu\u00e9m mais teve coragem de se aproximar de mim porque eles sabiam que eu n\u00e3o lidava bem com o assunto. Assim que sa\u00ed da \u00e1gua fui correndo para um banheiro e pedi para que chamassem meu pai. Quando ele chegou na porta eu estava aos prantos e supliquei para que me tirasse dali e me levasse para casa. Eu n\u00e3o suportaria encarar de frente meus amigos e familiares. Meu maior segredo que, na verdade, n\u00e3o era segredo, havia sido revelado e todos agora me conheciam sem peruca. Fiquei sabendo depois que minha m\u00e3e naquela tarde sabendo do meu sofrimento fez a promessa de n\u00e3o comer doces por um tempo caso eu retornasse para a festa, e eu sei que para ela era muito dif\u00edcil cumprir isso, mas amor de m\u00e3e \u00e9 incompar\u00e1vel. Elas s\u00e3o capazes de tudo por um filho, e n\u00e3o sei se foi pela f\u00e9 dela, mas milagrosamente eu tive coragem de voltar horas depois. Durante esse per\u00edodo todo que fiquei usando as pr\u00f3teses, principalmente as \u00faltimas que eram mais modernas e coladas com adesivos ao inv\u00e9s de amarradas, a \u00fanica pessoa que havia me visto e que me ajudava coloc\u00e1-las era minha irm\u00e3, Isabela, e mesmo assim, eu tinha dificuldade de encar\u00e1-la de frente, mas ela era o meu anjo na terra e acabei me tornando muito dependente da sua ajuda. Sexta-feira \u00e0 tarde era o dia que ela renovava os adesivos e eu me sentia ao menos mais protegido por uma semana. Naquele fat\u00eddico dia ela me abra\u00e7ou muito e disse que todos estavam muito tristes com minha sa\u00edda da festa e que o Carnaval acabaria ali caso eu n\u00e3o voltasse porque n\u00e3o teria l\u00f3gica eles continuarem a festa enquanto um estaria em casa sofrendo. Depois de muita insist\u00eancia dela e do meu pai acabei voltando para a festa, mas eu sabia que isso seria temporal. Meses depois aconteceu de novo e foi ainda pior: a pr\u00f3tese caiu numa discoteca e eu havia bebido muito (bebia como fuga) e meus amigos me encontraram deitado na cal\u00e7ada e me levaram para um pronto- socorro onde me deram inje\u00e7\u00e3o de glicose e amarraram um len\u00e7ol na minha cabe\u00e7a para que eu chegasse em casa . Era madrugada e quando meu pai me viu chegando em casa daquele jeito levou \u00e0s m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a pensando que eu havia sofrido um acidente. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o havia sido um acidente, mas foi o ponto determinante para que eu tomasse uma decis\u00e3o radical: quero sair daqui por um tempo e tentar me libertar disso sozinho.&nbsp;Coincidentemente nessa \u00e9poca eu tinha um amigo que havia se mudado para Portugal e que sabia de tudo o que havia acontecido comigo na ch\u00e1cara e na discoteca. Vendo a minha ang\u00fastia ele me fez o convite certeiro: \u201cPor qu\u00ea voc\u00ea n\u00e3o vem para Portugal e tenta se libertar disso? Aqui voc\u00ea n\u00e3o conhece ningu\u00e9m e se voc\u00ea quiser eu te evito no come\u00e7o at\u00e9 voc\u00ea se acostumar\u201d. Eu estava t\u00e3o desesperado que n\u00e3o pensei duas vezes. Eu disse que iria. Em menos de 15 dias estava com a passagem comprada. No entanto, mais uma vez, o destino se encarregou de pregar uma de suas pe\u00e7as em minha trajet\u00f3ria. Ironicamente ou n\u00e3o colocou no meu caminho depois de muitos anos a \u00fanica pessoa que eu havia amado em toda minha vida at\u00e9 aquele momento. Era um amor de adolescente, uma paix\u00e3o arrebatadora que levei para a vida adulta, mas era um sonho proibido porque ela havia se casado e tinha dois filhos. Apesar disso eu sempre me perguntava como seria caso a gente se reencontrasse um dia. E, novamente, o senhor destino decidiu me testar colocando-a no meu caminho a poucos dias da minha viagem. Ela apareceu subitamente, come\u00e7ou a me ligar, dizia que estava infeliz no casamento, que ainda me amava e que havia casado por car\u00eancia e n\u00e3o por amor. Mas existia dois bloqueios importantes nesse reencontro: ela ainda estava casada, mas queria me reencontrar antes da minha ida \u00e0 Portugal e n\u00e3o tinha coragem (eu n\u00e3o havia contado o real motivo da viagem). 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Era setembro de 2001. Assim que passei pela imigra\u00e7\u00e3o no aeroporto de Lisboa e cruzei a porta para o sagu\u00e3o principal eu sabia que n\u00e3o havia mais volta. Eu estava fora do Brasil, distante da minha fam\u00edlia e dos meus amigos, e a partir daquele momento era importante ter consci\u00eancia que mais do que nunca eu seria respons\u00e1vel pelas minhas a\u00e7\u00f5es e teria que estar preparado para as consequ\u00eancias. No Brasil eu tinha o amparo da minha fam\u00edlia. Agora era diferente. A lei da sobreviv\u00eancia batia forte, e eu sabia que minha primeira a\u00e7\u00e3o era ir ao banheiro e me libertar daquele problema que me afligia h\u00e1 anos. Era por essa raz\u00e3o que eu havia viajado e se n\u00e3o tivesse coragem de fazer aquilo ali no banheiro, ou seja, de libertar-me daquele peso naquele instante eu n\u00e3o teria for\u00e7as para faz\u00ea-lo depois. Pois bem: vamos aos fatos! At\u00e9 2001 eu j\u00e1 havia cogitado fazer algum interc\u00e2mbio de idiomas no exterior, pois sonhava em conhecer culturas diferentes e ter uma nova experi\u00eancia de vida. Nessa \u00e9poca, eu era praticamente um rec\u00e9m- formado jornalista em in\u00edcio de carreira. Amava minha profiss\u00e3o,&nbsp;mas quando decidi imigrar n\u00e3o foi exatamente buscando um novo trabalho na \u00e1rea. Eu sa\u00ed do Brasil porque precisava me aceitar como eu era e se eu n\u00e3o fizesse isso n\u00e3o conseguiria avan\u00e7ar em nenhum campo de minha vida, principalmente o profissional. Explico: aos 17, 18 anos, comecei a perder cabelo de uma forma muito acelerada e isso foi me deixando reprimido e frustrado. J\u00e1 come\u00e7avam os coment\u00e1rios maldosos: \u201cih, t\u00e1 ficando careca\u201d, \u201cmelhor voc\u00ea passar uma m\u00e1quina zero porque n\u00e3o adianta disfar\u00e7ar\u201d. E assim por diante. Para muitos isso pode parecer uma besteira, algo f\u00fatil ou muito pequeno diante de tantos outros problemas mais s\u00e9rios, mas n\u00e3o para um adolescente ainda tentando se firmar, cheio de d\u00favidas e de incertezas- que somente mais pr\u00e1 frente foram desvendadas-. Ent\u00e3o, sem outro caminho passei a usar bon\u00e9s. Eles eram como uma \u201cmuleta\u201d para mim. Eu n\u00e3o saia do meu quarto sem estar com eles. Ningu\u00e9m me via sem bon\u00e9 nem mesmo os meus pais e minha irm\u00e3. Era algo que me machucava no fundo da alma. Na hora que ia dormir colocava ao lado do travesseiro e fechava a porta com medo que algu\u00e9m entrasse. Eu mesmo n\u00e3o conseguia me olhar no espelho. Tomava banho e trocava de roupa no banheiro, escovava os dentes sem olhar no espelho, tamanho era o meu complexo. S\u00f3 saia com o bon\u00e9 na cabe\u00e7a. Nem mesmo na hora das refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia eu retirava. Nessa \u00e9poca, eu s\u00f3 conseguia me olhar quando estava de bon\u00e9 e mesmo assim era um olhar triste e vazio, pois eu sentia que me faltava algo. Evitava ir a lugares onde sabia que teria que ficar sem bon\u00e9, como piscina e praias, por exemplo. Uma \u00fanica vez decidi desafiar esse complexo e fui com meus amigos acampar. O lugar era lindo, cheio de piscinas e cachoeiras. Eu evitava ir na mesma hora que eles para a piscina e quando ia n\u00e3o tirava o bon\u00e9 nem mesmo dentro da piscina. N\u00e3o afundava a cabe\u00e7a para n\u00e3o ter que tir\u00e1-lo. Hoje me recordo disso e vejo como era algo forte e espiritual e que me impedia de ser feliz justamente numa das fases que estava despertando para a sexualidade e onde era normal todos se arrumarem para as \u201cfestinhas\u201d passando gel no cabelo, mudando o penteado e eu n\u00e3o tinha o que fazer. Se eu fosse \u00e0s festas, corria o risco de algu\u00e9m arranc\u00e1-lo de minha cabe\u00e7a, por isso, comecei a me isolar socialmente. &nbsp;Deixei de ir a todas as festas, anivers\u00e1rios e at\u00e9 casamento de familiares por complexo. Tinha uma prima que eu gostava muito, uma das minhas preferidas, e eu n\u00e3o fui ao seu casamento por n\u00e3o querer usar bon\u00e9. Isso me machucou muito. E quando cheguei \u00e0 faculdade eu tive que me abrir um pouco mais para o mundo, mas engana-se quem pensa que eu me soltei completamente. Sempre fui um excelente aluno, j\u00e1 amava minha profiss\u00e3o, mas continuava me escondendo por tr\u00e1s de um acess\u00f3rio. S\u00f3 que eu sabia que se quisesse terminar o meu curso eu teria que, obrigatoriamente, cursar uma das disciplinas da grade: TV. Todo curso de jornalismo passa por essa disciplina e as aulas pr\u00e1ticas incluem grava\u00e7\u00f5es de reportagens. N\u00e3o pegava bem fazer uma grava\u00e7\u00e3o com bon\u00e9, sem contar que minha professora tamb\u00e9m n\u00e3o aceitaria. Eu precisava tomar uma decis\u00e3o r\u00e1pida, j\u00e1 que as aulas pr\u00e1ticas de TV estavam chegando e seriam no terceiro ano da faculdade. E foi assim que recorri \u00e0s pr\u00f3teses capilares- naquela \u00e9poca muito artificiais e feitas com uma t\u00e9cnica dolorosa-. Eles amarravam o restante dos cabelos da pessoa com a pr\u00f3tese e &nbsp;iam costurando os fios. Durava mais ou menos um m\u00eas e logo os fios come\u00e7avam a se soltar e era preciso fazer uma manuten\u00e7\u00e3o. Mesmo a contragosto eu acabei optando por elas. Eu n\u00e3o estava feliz. Eu sabia que as pessoas por tr\u00e1s iam comentar que eu estava usando peruca e o complexo era t\u00e3o maldito que, na minha cabe\u00e7a, qualquer pessoa que me olhasse por mais de dois segundos era porque estava olhando para minha peruca. Esse foi um processo bastante doloroso e de muitas etapas diferentes, mas consegui me formar com louvor na faculdade e at\u00e9 um dos meus melhores trabalhos na universidade foi como apresentador de um programa de TV, e tudo isso usando aquele acess\u00f3rio estranho, mas que serviu por muitos anos para n\u00e3o me deixar enclausurado dentro de casa. Para quem chegou at\u00e9 aqui deve estar se perguntando: mas o que tudo isso, esse relato emocional e pessoal tem a ver com imigra\u00e7\u00e3o e com Portugal? TUDOOOO.&nbsp;Sabe por qu\u00ea ? Porque foi justamente para me livrar das perucas que eu decidi sair do pa\u00eds. Loucura, n\u00e3o? Precisava ir t\u00e3o longe para se libertar de um problema pessoal com tantas cidades no Brasil? &nbsp;Se voc\u00ea me fizesse essa pergunta hoje eu diria que n\u00e3o e que eu estava louco, mas somente eu sabia no meu \u00edntimo como tudo aquilo havia me machucado nos \u00faltimos anos. Foi um ato desesperador e um pedido de socorro. E o ponto de virada para essa decis\u00e3o foi um churrasco de fam\u00edlia. Era Carnaval. Fam\u00edlia e amigos reunidos numa ch\u00e1cara para passar os quatro dias de festa. Cen\u00e1rio perfeito para a minha \u201ctrag\u00e9dia pessoal\u201d. Eu havia bebido um pouco mais da conta- isso porque n\u00e3o gosto de beber-, e no primeiro mergulho com a piscina lotada de pessoas, o golpe fatal: a peruca saiu da minha cabe\u00e7a e ficou boiando. Quando eu percebi j\u00e1 n\u00e3o tinha mais o que fazer. Eu estava t\u00e3o envergonhado que n\u00e3o tinha coragem de sair da \u00e1gua. Minha cabe\u00e7a estava afundada como a de uma tartaruga dentro do seu casco. Lembro que um primo sabendo o quanto aquele assunto me perturbava tratou de mergulhar para \u201cresgatar\u201d a peruca e a colocou na minha cabe\u00e7a de qualquer jeito. Em seguida me deu um bon\u00e9 para que eu me sentisse mais seguro e pudesse ao menos sair da piscina. A sensa\u00e7\u00e3o que eu tinha era de uma cena de um filme em c\u00e2mera lenta na qual todos os personagens em diferentes pontos do cen\u00e1rio me olhavam para saber qual seria minha pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o desse meu primo ningu\u00e9m mais teve coragem de se aproximar de mim porque eles sabiam que eu n\u00e3o lidava bem com o assunto. Assim que sa\u00ed da \u00e1gua fui correndo para um banheiro e pedi para que chamassem meu pai. Quando ele chegou na porta eu estava aos prantos e supliquei para que me tirasse dali e me levasse para casa. Eu n\u00e3o suportaria encarar de frente meus amigos e familiares. Meu maior segredo que, na verdade, n\u00e3o era segredo, havia sido revelado e todos agora me conheciam sem peruca. Fiquei sabendo depois que minha m\u00e3e naquela tarde sabendo do meu sofrimento fez a promessa de n\u00e3o comer doces por um tempo caso eu retornasse para a festa, e eu sei que para ela era muito dif\u00edcil cumprir isso, mas amor de m\u00e3e \u00e9 incompar\u00e1vel. Elas s\u00e3o capazes de tudo por um filho, e n\u00e3o sei se foi pela f\u00e9 dela, mas milagrosamente eu tive coragem de voltar horas depois. Durante esse per\u00edodo todo que fiquei usando as pr\u00f3teses, principalmente as \u00faltimas que eram mais modernas e coladas com adesivos ao inv\u00e9s de amarradas, a \u00fanica pessoa que havia me visto e que me ajudava coloc\u00e1-las era minha irm\u00e3, Isabela, e mesmo assim, eu tinha dificuldade de encar\u00e1-la de frente, mas ela era o meu anjo na terra e acabei me tornando muito dependente da sua ajuda. Sexta-feira \u00e0 tarde era o dia que ela renovava os adesivos e eu me sentia ao menos mais protegido por uma semana. Naquele fat\u00eddico dia ela me abra\u00e7ou muito e disse que todos estavam muito tristes com minha sa\u00edda da festa e que o Carnaval acabaria ali caso eu n\u00e3o voltasse porque n\u00e3o teria l\u00f3gica eles continuarem a festa enquanto um estaria em casa sofrendo. Depois de muita insist\u00eancia dela e do meu pai acabei voltando para a festa, mas eu sabia que isso seria temporal. Meses depois aconteceu de novo e foi ainda pior: a pr\u00f3tese caiu numa discoteca e eu havia bebido muito (bebia como fuga) e meus amigos me encontraram deitado na cal\u00e7ada e me levaram para um pronto- socorro onde me deram inje\u00e7\u00e3o de glicose e amarraram um len\u00e7ol na minha cabe\u00e7a para que eu chegasse em casa . Era madrugada e quando meu pai me viu chegando em casa daquele jeito levou \u00e0s m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a pensando que eu havia sofrido um acidente. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o havia sido um acidente, mas foi o ponto determinante para que eu tomasse uma decis\u00e3o radical: quero sair daqui por um tempo e tentar me libertar disso sozinho.&nbsp;Coincidentemente nessa \u00e9poca eu tinha um amigo que havia se mudado para Portugal e que sabia de tudo o que havia acontecido comigo na ch\u00e1cara e na discoteca. Vendo a minha ang\u00fastia ele me fez o convite certeiro: \u201cPor qu\u00ea voc\u00ea n\u00e3o vem para Portugal e tenta se libertar disso? Aqui voc\u00ea n\u00e3o conhece ningu\u00e9m e se voc\u00ea quiser eu te evito no come\u00e7o at\u00e9 voc\u00ea se acostumar\u201d. Eu estava t\u00e3o desesperado que n\u00e3o pensei duas vezes. Eu disse que iria. Em menos de 15 dias estava com a passagem comprada. No entanto, mais uma vez, o destino se encarregou de pregar uma de suas pe\u00e7as em minha trajet\u00f3ria. Ironicamente ou n\u00e3o colocou no meu caminho depois de muitos anos a \u00fanica pessoa que eu havia amado em toda minha vida at\u00e9 aquele momento. Era um amor de adolescente, uma paix\u00e3o arrebatadora que levei para a vida adulta, mas era um sonho proibido porque ela havia se casado e tinha dois filhos. Apesar disso eu sempre me perguntava como seria caso a gente se reencontrasse um dia. E, novamente, o senhor destino decidiu me testar colocando-a no meu caminho a poucos dias da minha viagem. Ela apareceu subitamente, come\u00e7ou a me ligar, dizia que estava infeliz no casamento, que ainda me amava e que havia casado por car\u00eancia e n\u00e3o por amor. Mas existia dois bloqueios importantes nesse reencontro: ela ainda estava casada, mas queria me reencontrar antes da minha ida \u00e0 Portugal e n\u00e3o tinha coragem (eu n\u00e3o havia contado o real motivo da viagem). Por outro lado, eu n\u00e3o tinha peito e estrutura para rev\u00ea-la depois de tantos anos e confessar que usava peruca. Qual o final desta hist\u00f3ria? Voc\u00eas creem que a D\u00e9a e eu nos encontramos? 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Era setembro de 2001. Assim que passei pela imigra\u00e7\u00e3o no aeroporto de Lisboa e cruzei a porta para o sagu\u00e3o principal eu sabia que n\u00e3o havia mais volta. Eu estava fora do Brasil, distante da minha fam\u00edlia e dos meus amigos, e a partir daquele momento era importante ter consci\u00eancia que mais do que nunca eu seria respons\u00e1vel pelas minhas a\u00e7\u00f5es e teria que estar preparado para as consequ\u00eancias. No Brasil eu tinha o amparo da minha fam\u00edlia. Agora era diferente. A lei da sobreviv\u00eancia batia forte, e eu sabia que minha primeira a\u00e7\u00e3o era ir ao banheiro e me libertar daquele problema que me afligia h\u00e1 anos. Era por essa raz\u00e3o que eu havia viajado e se n\u00e3o tivesse coragem de fazer aquilo ali no banheiro, ou seja, de libertar-me daquele peso naquele instante eu n\u00e3o teria for\u00e7as para faz\u00ea-lo depois. Pois bem: vamos aos fatos! At\u00e9 2001 eu j\u00e1 havia cogitado fazer algum interc\u00e2mbio de idiomas no exterior, pois sonhava em conhecer culturas diferentes e ter uma nova experi\u00eancia de vida. Nessa \u00e9poca, eu era praticamente um rec\u00e9m- formado jornalista em in\u00edcio de carreira. Amava minha profiss\u00e3o,&nbsp;mas quando decidi imigrar n\u00e3o foi exatamente buscando um novo trabalho na \u00e1rea. Eu sa\u00ed do Brasil porque precisava me aceitar como eu era e se eu n\u00e3o fizesse isso n\u00e3o conseguiria avan\u00e7ar em nenhum campo de minha vida, principalmente o profissional. Explico: aos 17, 18 anos, comecei a perder cabelo de uma forma muito acelerada e isso foi me deixando reprimido e frustrado. J\u00e1 come\u00e7avam os coment\u00e1rios maldosos: \u201cih, t\u00e1 ficando careca\u201d, \u201cmelhor voc\u00ea passar uma m\u00e1quina zero porque n\u00e3o adianta disfar\u00e7ar\u201d. E assim por diante. Para muitos isso pode parecer uma besteira, algo f\u00fatil ou muito pequeno diante de tantos outros problemas mais s\u00e9rios, mas n\u00e3o para um adolescente ainda tentando se firmar, cheio de d\u00favidas e de incertezas- que somente mais pr\u00e1 frente foram desvendadas-. Ent\u00e3o, sem outro caminho passei a usar bon\u00e9s. Eles eram como uma \u201cmuleta\u201d para mim. Eu n\u00e3o saia do meu quarto sem estar com eles. Ningu\u00e9m me via sem bon\u00e9 nem mesmo os meus pais e minha irm\u00e3. Era algo que me machucava no fundo da alma. Na hora que ia dormir colocava ao lado do travesseiro e fechava a porta com medo que algu\u00e9m entrasse. Eu mesmo n\u00e3o conseguia me olhar no espelho. Tomava banho e trocava de roupa no banheiro, escovava os dentes sem olhar no espelho, tamanho era o meu complexo. S\u00f3 saia com o bon\u00e9 na cabe\u00e7a. Nem mesmo na hora das refei\u00e7\u00f5es em fam\u00edlia eu retirava. Nessa \u00e9poca, eu s\u00f3 conseguia me olhar quando estava de bon\u00e9 e mesmo assim era um olhar triste e vazio, pois eu sentia que me faltava algo. Evitava ir a lugares onde sabia que teria que ficar sem bon\u00e9, como piscina e praias, por exemplo. Uma \u00fanica vez decidi desafiar esse complexo e fui com meus amigos acampar. O lugar era lindo, cheio de piscinas e cachoeiras. Eu evitava ir na mesma hora que eles para a piscina e quando ia n\u00e3o tirava o bon\u00e9 nem mesmo dentro da piscina. N\u00e3o afundava a cabe\u00e7a para n\u00e3o ter que tir\u00e1-lo. Hoje me recordo disso e vejo como era algo forte e espiritual e que me impedia de ser feliz justamente numa das fases que estava despertando para a sexualidade e onde era normal todos se arrumarem para as \u201cfestinhas\u201d passando gel no cabelo, mudando o penteado e eu n\u00e3o tinha o que fazer. Se eu fosse \u00e0s festas, corria o risco de algu\u00e9m arranc\u00e1-lo de minha cabe\u00e7a, por isso, comecei a me isolar socialmente. &nbsp;Deixei de ir a todas as festas, anivers\u00e1rios e at\u00e9 casamento de familiares por complexo. Tinha uma prima que eu gostava muito, uma das minhas preferidas, e eu n\u00e3o fui ao seu casamento por n\u00e3o querer usar bon\u00e9. Isso me machucou muito. E quando cheguei \u00e0 faculdade eu tive que me abrir um pouco mais para o mundo, mas engana-se quem pensa que eu me soltei completamente. Sempre fui um excelente aluno, j\u00e1 amava minha profiss\u00e3o, mas continuava me escondendo por tr\u00e1s de um acess\u00f3rio. S\u00f3 que eu sabia que se quisesse terminar o meu curso eu teria que, obrigatoriamente, cursar uma das disciplinas da grade: TV. Todo curso de jornalismo passa por essa disciplina e as aulas pr\u00e1ticas incluem grava\u00e7\u00f5es de reportagens. N\u00e3o pegava bem fazer uma grava\u00e7\u00e3o com bon\u00e9, sem contar que minha professora tamb\u00e9m n\u00e3o aceitaria. Eu precisava tomar uma decis\u00e3o r\u00e1pida, j\u00e1 que as aulas pr\u00e1ticas de TV estavam chegando e seriam no terceiro ano da faculdade. E foi assim que recorri \u00e0s pr\u00f3teses capilares- naquela \u00e9poca muito artificiais e feitas com uma t\u00e9cnica dolorosa-. Eles amarravam o restante dos cabelos da pessoa com a pr\u00f3tese e &nbsp;iam costurando os fios. Durava mais ou menos um m\u00eas e logo os fios come\u00e7avam a se soltar e era preciso fazer uma manuten\u00e7\u00e3o. Mesmo a contragosto eu acabei optando por elas. Eu n\u00e3o estava feliz. Eu sabia que as pessoas por tr\u00e1s iam comentar que eu estava usando peruca e o complexo era t\u00e3o maldito que, na minha cabe\u00e7a, qualquer pessoa que me olhasse por mais de dois segundos era porque estava olhando para minha peruca. Esse foi um processo bastante doloroso e de muitas etapas diferentes, mas consegui me formar com louvor na faculdade e at\u00e9 um dos meus melhores trabalhos na universidade foi como apresentador de um programa de TV, e tudo isso usando aquele acess\u00f3rio estranho, mas que serviu por muitos anos para n\u00e3o me deixar enclausurado dentro de casa. Para quem chegou at\u00e9 aqui deve estar se perguntando: mas o que tudo isso, esse relato emocional e pessoal tem a ver com imigra\u00e7\u00e3o e com Portugal? TUDOOOO.&nbsp;Sabe por qu\u00ea ? Porque foi justamente para me livrar das perucas que eu decidi sair do pa\u00eds. Loucura, n\u00e3o? Precisava ir t\u00e3o longe para se libertar de um problema pessoal com tantas cidades no Brasil? &nbsp;Se voc\u00ea me fizesse essa pergunta hoje eu diria que n\u00e3o e que eu estava louco, mas somente eu sabia no meu \u00edntimo como tudo aquilo havia me machucado nos \u00faltimos anos. Foi um ato desesperador e um pedido de socorro. E o ponto de virada para essa decis\u00e3o foi um churrasco de fam\u00edlia. Era Carnaval. Fam\u00edlia e amigos reunidos numa ch\u00e1cara para passar os quatro dias de festa. Cen\u00e1rio perfeito para a minha \u201ctrag\u00e9dia pessoal\u201d. Eu havia bebido um pouco mais da conta- isso porque n\u00e3o gosto de beber-, e no primeiro mergulho com a piscina lotada de pessoas, o golpe fatal: a peruca saiu da minha cabe\u00e7a e ficou boiando. Quando eu percebi j\u00e1 n\u00e3o tinha mais o que fazer. Eu estava t\u00e3o envergonhado que n\u00e3o tinha coragem de sair da \u00e1gua. Minha cabe\u00e7a estava afundada como a de uma tartaruga dentro do seu casco. Lembro que um primo sabendo o quanto aquele assunto me perturbava tratou de mergulhar para \u201cresgatar\u201d a peruca e a colocou na minha cabe\u00e7a de qualquer jeito. Em seguida me deu um bon\u00e9 para que eu me sentisse mais seguro e pudesse ao menos sair da piscina. A sensa\u00e7\u00e3o que eu tinha era de uma cena de um filme em c\u00e2mera lenta na qual todos os personagens em diferentes pontos do cen\u00e1rio me olhavam para saber qual seria minha pr\u00f3xima a\u00e7\u00e3o. Com exce\u00e7\u00e3o desse meu primo ningu\u00e9m mais teve coragem de se aproximar de mim porque eles sabiam que eu n\u00e3o lidava bem com o assunto. Assim que sa\u00ed da \u00e1gua fui correndo para um banheiro e pedi para que chamassem meu pai. Quando ele chegou na porta eu estava aos prantos e supliquei para que me tirasse dali e me levasse para casa. Eu n\u00e3o suportaria encarar de frente meus amigos e familiares. Meu maior segredo que, na verdade, n\u00e3o era segredo, havia sido revelado e todos agora me conheciam sem peruca. Fiquei sabendo depois que minha m\u00e3e naquela tarde sabendo do meu sofrimento fez a promessa de n\u00e3o comer doces por um tempo caso eu retornasse para a festa, e eu sei que para ela era muito dif\u00edcil cumprir isso, mas amor de m\u00e3e \u00e9 incompar\u00e1vel. Elas s\u00e3o capazes de tudo por um filho, e n\u00e3o sei se foi pela f\u00e9 dela, mas milagrosamente eu tive coragem de voltar horas depois. Durante esse per\u00edodo todo que fiquei usando as pr\u00f3teses, principalmente as \u00faltimas que eram mais modernas e coladas com adesivos ao inv\u00e9s de amarradas, a \u00fanica pessoa que havia me visto e que me ajudava coloc\u00e1-las era minha irm\u00e3, Isabela, e mesmo assim, eu tinha dificuldade de encar\u00e1-la de frente, mas ela era o meu anjo na terra e acabei me tornando muito dependente da sua ajuda. Sexta-feira \u00e0 tarde era o dia que ela renovava os adesivos e eu me sentia ao menos mais protegido por uma semana. Naquele fat\u00eddico dia ela me abra\u00e7ou muito e disse que todos estavam muito tristes com minha sa\u00edda da festa e que o Carnaval acabaria ali caso eu n\u00e3o voltasse porque n\u00e3o teria l\u00f3gica eles continuarem a festa enquanto um estaria em casa sofrendo. Depois de muita insist\u00eancia dela e do meu pai acabei voltando para a festa, mas eu sabia que isso seria temporal. Meses depois aconteceu de novo e foi ainda pior: a pr\u00f3tese caiu numa discoteca e eu havia bebido muito (bebia como fuga) e meus amigos me encontraram deitado na cal\u00e7ada e me levaram para um pronto- socorro onde me deram inje\u00e7\u00e3o de glicose e amarraram um len\u00e7ol na minha cabe\u00e7a para que eu chegasse em casa . Era madrugada e quando meu pai me viu chegando em casa daquele jeito levou \u00e0s m\u00e3os \u00e0 cabe\u00e7a pensando que eu havia sofrido um acidente. Gra\u00e7as a Deus n\u00e3o havia sido um acidente, mas foi o ponto determinante para que eu tomasse uma decis\u00e3o radical: quero sair daqui por um tempo e tentar me libertar disso sozinho.&nbsp;Coincidentemente nessa \u00e9poca eu tinha um amigo que havia se mudado para Portugal e que sabia de tudo o que havia acontecido comigo na ch\u00e1cara e na discoteca. Vendo a minha ang\u00fastia ele me fez o convite certeiro: \u201cPor qu\u00ea voc\u00ea n\u00e3o vem para Portugal e tenta se libertar disso? Aqui voc\u00ea n\u00e3o conhece ningu\u00e9m e se voc\u00ea quiser eu te evito no come\u00e7o at\u00e9 voc\u00ea se acostumar\u201d. Eu estava t\u00e3o desesperado que n\u00e3o pensei duas vezes. Eu disse que iria. Em menos de 15 dias estava com a passagem comprada. No entanto, mais uma vez, o destino se encarregou de pregar uma de suas pe\u00e7as em minha trajet\u00f3ria. Ironicamente ou n\u00e3o colocou no meu caminho depois de muitos anos a \u00fanica pessoa que eu havia amado em toda minha vida at\u00e9 aquele momento. Era um amor de adolescente, uma paix\u00e3o arrebatadora que levei para a vida adulta, mas era um sonho proibido porque ela havia se casado e tinha dois filhos. Apesar disso eu sempre me perguntava como seria caso a gente se reencontrasse um dia. E, novamente, o senhor destino decidiu me testar colocando-a no meu caminho a poucos dias da minha viagem. Ela apareceu subitamente, come\u00e7ou a me ligar, dizia que estava infeliz no casamento, que ainda me amava e que havia casado por car\u00eancia e n\u00e3o por amor. Mas existia dois bloqueios importantes nesse reencontro: ela ainda estava casada, mas queria me reencontrar antes da minha ida \u00e0 Portugal e n\u00e3o tinha coragem (eu n\u00e3o havia contado o real motivo da viagem). Por outro lado, eu n\u00e3o tinha peito e estrutura para rev\u00ea-la depois de tantos anos e confessar que usava peruca. Qual o final desta hist\u00f3ria? Voc\u00eas creem que a D\u00e9a e eu nos encontramos? Em caso positivo, eu contei para...","og_url":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/","og_site_name":"Desejo de Viver Blog","article_author":"https:\/\/www.facebook.com\/andreluis.cia","article_published_time":"2023-03-28T13:56:11+00:00","article_modified_time":"2023-04-26T23:04:37+00:00","og_image":[{"width":340,"height":480,"url":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-3.png","type":"image\/png"}],"author":"Andr\u00e9 Luis Cia","twitter_card":"summary_large_image","twitter_misc":{"Written by":"Andr\u00e9 Luis Cia","Est. reading time":"12 minutes"},"schema":{"@context":"https:\/\/schema.org","@graph":[{"@type":"Article","@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/#article","isPartOf":{"@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/"},"author":{"name":"Andr\u00e9 Luis Cia","@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/#\/schema\/person\/cc70b59e209ddf81248afb583ce1e149"},"headline":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 2","datePublished":"2023-03-28T13:56:11+00:00","dateModified":"2023-04-26T23:04:37+00:00","mainEntityOfPage":{"@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/"},"wordCount":2258,"commentCount":0,"publisher":{"@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/#organization"},"image":{"@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/#primaryimage"},"thumbnailUrl":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-3.png","keywords":["#adolesc\u00eancia","#complexo#","#imigrantesbrasileiros","#portugal","#sonhoeuropeu","#trauma","#vivernoexterior","3brasileirosprelomundo","vivernaeuropa"],"articleSection":["Di\u00e1rio de um imigrante"],"inLanguage":"en-US","potentialAction":[{"@type":"CommentAction","name":"Comment","target":["https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/#respond"]}]},{"@type":"WebPage","@id":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/","url":"https:\/\/www.desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/28\/diario-de-um-imigrante-parte-2-portugal\/","name":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 2 - 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