{"id":207,"date":"2023-03-29T12:25:46","date_gmt":"2023-03-29T15:25:46","guid":{"rendered":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/?p=207"},"modified":"2023-04-26T20:03:17","modified_gmt":"2023-04-26T23:03:17","slug":"diario-de-um-imigrante-parte-3-portugal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/03\/29\/diario-de-um-imigrante-parte-3-portugal\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 3"},"content":{"rendered":"\n<p><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"340\" height=\"480\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-4.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-323\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-4.png 340w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/03\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-4-213x300.png 213w\" sizes=\"(max-width: 340px) 100vw, 340px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sintra foi a primeira cidade onde trabalhei no exterior, mas at\u00e9 chegar ali tive que vencer minha maior luta pessoal<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>No epis\u00f3dio anterior da s\u00e9rie \u201cDi\u00e1rio de um imigrante\u201d, eu parei de contar a hist\u00f3ria exatamente no momento onde o destino pregava uma de suas maiores pe\u00e7as na minha caminhada. Em um roteiro, dir\u00edamos que isso se chama um \u201cplot point\u201d, ou seja, o ponto de virada no momento cl\u00edmax da narrativa. Mas foi exatamente assim que senti ao me ver naquela situa\u00e7\u00e3o. Depois de anos de isolamento social por causa de um trauma que me acompanhava desde a adolesc\u00eancia quando, finalmente, eu havia decidido dar um passo rumo \u00e0 minha liberta\u00e7\u00e3o com a ida para Portugal, eis que o destino sorrateiro e cruel me trouxe de presente um grande amor do passado para me deixar mais confuso ainda. E nesse ponto concordo com os eternos apaixonados e rom\u00e2nticos: o primeiro amor pode at\u00e9 n\u00e3o ser o mais importante de nossas vidas, mas ele tem um significado todo especial e marca nossa jornada.<\/p>\n\n\n\n<p>E com D\u00e9a foi assim. Foi um amor de inf\u00e2ncia que passou para a adolesc\u00eancia e que por uma s\u00e9rie de obst\u00e1culos, na \u00e9poca, n\u00e3o seguiu adiante. E n\u00e3o porque n\u00e3o quis\u00e9ssemos ou n\u00e3o houvesse amor o suficiente, mas sim, porque n\u00e3o era o nosso momento de estar juntos. Esse amor viria anos depois, e por ironia, semanas antes do meu embarque para Portugal.<\/p>\n\n\n\n<p>Passagens compradas, malas feitas, hospedagem definida. Tudo, absolutamente tudo seguia dentro de uma aparente normalidade, se n\u00e3o fosse pela minha ansiedade que numa escala de 0 a 100 estava no n\u00famero 99. Eu n\u00e3o esperava que uma sa\u00edda casual com minha ex-cunhada Fran que eu tamb\u00e9m n\u00e3o via h\u00e1 anos, assim como D\u00e9a, fosse desencadear tantos sentimentos adormecidos a ponto de eu at\u00e9 mesmo repensar a viagem.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrar no meu carro naquele s\u00e1bado \u00e0 noite a menos de duas semanas do meu embarque para Portugal, a primeira coisa que Fran fez depois de me abra\u00e7ar foi entregar um bilhete de D\u00e9a todo amassado com um sorriso maroto nos l\u00e1bios. \u201cQueria estar no lugar da minha irm\u00e3\u201d. Essa era a \u00fanica frase que estava escrita, mas que foi suficiente para provocar um turbilh\u00e3o de emo\u00e7\u00f5es em mim. Naquela noite eu n\u00e3o consegui me concentrar em mais nada. Tinha um sorriso contido dentro de mim e uma felicidade que queria gritar para o mundo. Meus pensamentos giravam freneticamente. \u201cEnt\u00e3o, havia uma esperan\u00e7a. Ela n\u00e3o era feliz no casamento e depois de anos eu teria uma nova oportunidade\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Me culpo por n\u00e3o ter dado aten\u00e7\u00e3o \u00e0 minha ex-cunhada, mas eu n\u00e3o tinha outro pensamento que n\u00e3o fosse em sua irm\u00e3. Como de costume, n\u00e3o tive coragem de contar \u00e0 Fran o motivo de minha ida repentina \u00e0 Portugal. Inventei uma desculpa qualquer. Falar sobre aquele tema era algo que me machucava muito e n\u00e3o queria que sua irm\u00e3 soubesse. Eu estava muito inseguro e pensava: \u201cSe h\u00e1 uma chance isso vai acabar quando ela me ver careca ou saber que uso peruca\u201d. Quando nos despedimos, escrevi um outro bilhete e pedi em nome de nossa amizade de tantos anos que ela entregasse \u00e0 sua irm\u00e3. &nbsp;Estava escrito: \u201cPreciso muito te ver antes da minha viagem. Me liga\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Voltei para casa naquela noite cantando. A minha alegria era contagiante. A ansiedade, o medo e a inseguran\u00e7a da viagem haviam cedido espa\u00e7o para um semblante de serenidade e esperan\u00e7a. Uma paix\u00e3o adormecida do passado havia renascido ainda mais forte. Despertei no domingo e fiquei calado sobre o assunto em minha casa. Sabia que caso eu dissesse qualquer coisa poderia soar como um problema, principalmente porque eu estava me metendo numa hist\u00f3ria que afetaria outras pessoas.<\/p>\n\n\n\n<p>Passei o dia todo esperando uma liga\u00e7\u00e3o que n\u00e3o veio. Naquela \u00e9poca n\u00e3o tinha celular. Era 19 horas quando o telefone tocou. Meus pais e minha irm\u00e3 viam TV na sala. Por sorte, o aparelho ficava na cozinha e n\u00e3o havia extens\u00e3o. Quando tocou pela primeira vez dei um salto e peguei todos de surpresa. \u201cT\u00e1 louco, menino?\u201d,- minha m\u00e3e resmungou. &nbsp;Eu nem dei aten\u00e7\u00e3o ao coment\u00e1rio dela e sai em disparada. Algo me dizia que era ela. Intui\u00e7\u00e3o masculina tamb\u00e9m funciona.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando eu ouvi o barulho de uma ficha telef\u00f4nica caindo- ela me ligou de um aparelho p\u00fablico que funcionava \u00e0 base de fichas-, eu n\u00e3o tive mais d\u00favidas. Era D\u00e9a me ligando! Depois de quase dez anos estava falando com o amor de minha vida de novo. Meu cora\u00e7\u00e3o parecia que ia explodir. N\u00e3o tive rea\u00e7\u00e3o. Coube \u00e0 ela, quebrar o gelo. &nbsp;\u201cAndr\u00e9, sou eu\u201d. N\u00e3o precisava se identificar. Eu conheceria aquela voz em qualquer lugar do mundo. Eu respondi de imediato e ainda surpreso: \u201cN\u00e3o acredito que voc\u00ea teve coragem\u201d. D\u00e9a retrucou nervosa. \u201cNem eu acredito no que estou fazendo. Sa\u00ed de casa correndo pra te ligar. Falei que ia na padaria, mas j\u00e1 tenho que voltar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cN\u00e3o. Voc\u00ea t\u00e1 louca?\u201d. Essa foi minha primeira rea\u00e7\u00e3o. &nbsp;\u201cA gente tem muito o que conversar. Eu esperei anos por essa liga\u00e7\u00e3o\u201d, disse nervoso com medo que ela desligasse. Depois de tantos anos sem nenhum contato isso n\u00e3o poderia morrer numa chamada. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9a retrucou toda temerosa do que ia falar, mas deixou escapar o desejo latente de uma confiss\u00e3o: \u201cEu sei que voc\u00ea t\u00e1 indo embora, mas s\u00f3 queria te confessar uma coisa\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>No fundo eu esperava a confirma\u00e7\u00e3o vinda da sua boca, mas preferi deix\u00e1-la falar abertamente. \u201cEu te amo, eu sempre te amei. Eu nunca te esqueci\u201d. Ela chorava do outro lado da linha e eu chorava copiosamente do meu lado. Nessa hora minha m\u00e3e percebendo que eu falava mais baixo que de costume gritou l\u00e1 da sala; \u201cAndr\u00e9, com quem voc\u00ea est\u00e1 no telefone?\u201d. Eu menti dizendo que era uma amiga da faculdade e prossegui a conversa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9a e eu est\u00e1vamos muito nervosos e emocionados. As palavras se misturavam em meio a solu\u00e7os. Ela me disse que teria que ir porque a padaria ia fechar e precisaria chegar com os p\u00e3es em casa. Eu concordei com sua ida, mas a fiz prometer que retornaria no outro dia e que seguir\u00edamos falando todos os dias. De ambos os lados haviam muitas cicatrizes e questionamentos. &nbsp;Os dois haviam errado no passado, mas agora brotava uma nova esperan\u00e7a.<\/p>\n\n\n\n<p>Posso dizer com convic\u00e7\u00e3o que no restante dos dias at\u00e9 a viagem deixei praticamente de pensar em Portugal. Eu s\u00f3 pensava num poss\u00edvel reencontro antes da viagem. Eu teria coragem de v\u00ea-la e confessar a raz\u00e3o da viagem? E por outro lado, ela teria coragem de sair de sua casa para me encontrar?<\/p>\n\n\n\n<p>Estas d\u00favidas persistiram. Todos os dias fal\u00e1vamos religiosamente \u00e0s 13h (hora do seu almo\u00e7o do trabalho) por uma hora seguida, e \u00e0s 19 horas (numa liga\u00e7\u00e3o r\u00e1pida com a desculpa da padaria). Em 15 dias, o amor adormecido por tantos anos ganhou uma for\u00e7a brutal. Eu queria aquela mulher para mim. Eu sonhava com o nosso filho que se chamaria Pedro, e assumiria tamb\u00e9m os seus dois filhos como se fossem meus. Cora\u00e7\u00e3o de canceriano sempre tem lugar para mais um.<\/p>\n\n\n\n<p>No entanto, o tempo foi ardiloso com a gente. As horas e os dias passaram freneticamente e o tal do encontro n\u00e3o acontecia. Eu a culpava por n\u00e3o ter coragem de me ver, mas ao mesmo tempo me sentia aliviado porque n\u00e3o me sentia preparado para que ela me visse usando peruca. Mas no fundo eu tinha uma esperan\u00e7a de que a qualquer momento o telefone tocaria e eu correria para os seus bra\u00e7os. Eu n\u00e3o sabia como seria minha vida em Portugal, minha adapta\u00e7\u00e3o, quanto tempo ficaria ali. Eu n\u00e3o podia permitir cruzar o Atl\u00e2ntico sem v\u00ea-la e saber se aquele amor agora seria forte o suficiente para resistir a tudo que viria pela frente, e n\u00e3o eram desafios f\u00e1ceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha ida \u00e0 Portugal estava marcada para o in\u00edcio de setembro de 2001. Meu avi\u00e3o sairia do Aeroporto Internacional de Guarulhos, \u00e0s 19h. Minha m\u00e3e, festeira como sempre, havia alugado uma van para levar meus amigos mais pr\u00f3ximos e minha fam\u00edlia do interior de Americana, interior de S\u00e3o Paulo, para as despedidas no aeroporto- o que ningu\u00e9m imaginava \u00e9 que essa primeira viagem seria t\u00e3o curta-.<\/p>\n\n\n\n<p>No domingo anterior ao meu embarque havia uma festa em minha casa. Mais uma vez um evento patrocinado por dona Eliete, minha saudosa m\u00e3e. Ela era a primeira a organizar os eventos da fam\u00edlia. Hoje vejo que ela jogava em mim todos os anseios daquilo que ela n\u00e3o p\u00f4de fazer em sua vida por causa do acidente (em outro cap\u00edtulo contarei sua triste trajet\u00f3ria interrompida por um racha entre dois motociclistas que a fez perder o movimento dos p\u00e9s).<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 festa, todos os que interessavam para mim estavam ali. Os meus primos, amigos mais pr\u00f3ximos e minha fam\u00edlia. At\u00e9 mesmo Fran havia ido Sim! Ela voltou a frequentar minha casa novamente e tinha se tornado minha confidente e apoiadora. Ela torcia para que D\u00e9a e eu retom\u00e1ssemos nossa rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu estava feliz, mas ao mesmo tempo angustiado. Dentro de poucas horas estaria deixando para tr\u00e1s a minha casa, minha fam\u00edlia, meus amigos e D\u00e9a que havia reaparecido nesse momento crucial. Confesso que tive vontade de desistir, mas eu sabia que esse n\u00e3o era o melhor caminho, pois eu continuaria n\u00e3o me aceitando e o problema s\u00f3 iria numa crescente. Meu emocional dizia uma coisa, mas minha raz\u00e3o dizia outra. Mais do que nunca aquela viagem significaria minha liberta\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Independente do tempo que eu ficasse em Portugal era importante eu viajar, curar essas cicatrizes e voltar mais forte para os desafios que viriam pela frente e eu n\u00e3o tinha d\u00favidas que voltaria para lutar por aquele amor.<\/p>\n\n\n\n<p>Domingo. 18 horas. O telefone toca. Corro para atend\u00ea-lo e ou\u00e7o do outro lado da linha um convite quase sussurrado: \u201cEu n\u00e3o sei o que estou fazendo, mas n\u00e3o posso deixar voc\u00ea ir sem te ver. Me pega \u00e0s 19h em frente do cemit\u00e9rio\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Por alguns momentos comecei a rir. N\u00e3o tinha um lugar melhor para esse encontro? Ela havia marcado ali porque era mais deserto. Eu sabia que ela n\u00e3o podia correr riscos- apesar de n\u00e3o ter mais uma rela\u00e7\u00e3o de esposa com seu ex-marido-, havia uma fam\u00edlia por tr\u00e1s de tudo aquilo e tanto eu como ela n\u00e3o quer\u00edamos causar dor a outras pessoas. S\u00f3 quer\u00edamos a oportunidade de ser felizes e de viver a hist\u00f3ria que fomos impedidos no passado.<\/p>\n\n\n\n<p>Lugar combinado. Agora n\u00e3o tinha escapat\u00f3ria. Eu ia rev\u00ea-la. Sem saber o que aconteceria n\u00e3o havia mais como retroceder. Nessa altura do campeonato, a poucas horas de pegar o avi\u00e3o, minhas malas j\u00e1 estavam todas fechadas, mas eu n\u00e3o podia ir a esse encontro de qualquer jeito. N\u00e3o tive outra escolha a n\u00e3o ser desfaz\u00ea-las. A pior parte veio depois quando me olhei no espelho. Se eu j\u00e1 era inseguro normalmente com aquela pr\u00f3tese, multiplique isso por 1000. S\u00f3 de pensar que dentro de menos de uma hora ela me veria frente \u00e0 frente me causava palpita\u00e7\u00f5es.<\/p>\n\n\n\n<p>Me recordo de ter experimentado dezenas de roupas. N\u00e3o gostava de nenhuma. Pensei em ir de bon\u00e9, mas isso tamb\u00e9m me causaria desconforto caso ela o tirasse. Era melhor enfrentar de frente aquela situa\u00e7\u00e3o. Inventei uma desculpa para minha fam\u00edlia, peguei o carro e sa\u00ed em disparada para o encontro.<\/p>\n\n\n\n<p>Sua atual casa era distante da minha quase 30 minutos. Eu teria pouco tempo para chegar at\u00e9 o cemit\u00e9rio (que ficava \u00e0 poucas quadras de sua casa) e me encontrar. Teria que correr para dar tempo. Acabei chegando 18h50. Ainda faltavam 10 minutos para a hora marcada. Eu estava t\u00e3o inseguro que torcia para que ela desistisse. Mas quando olhei pelo retrovisor ela vinha em minha dire\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tinha como me enganar. Apesar do tempo que n\u00e3o a via, ela continuava linda. Os cabelos, antes compridos, haviam dado lugar a um corte curto e moderno. Ela vestia uma cal\u00e7a preta justa e uma blusa tomara que caia tamb\u00e9m preta. Estava maquiada. Usava um batom com brilho que real\u00e7avam ainda mais seus l\u00e1bios.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao entrar no meu carro nenhum de n\u00f3s disse uma \u00fanica palavra. Nos miramos por cerca de 30 segundos que mais pareceram uma eternidade e nos jogamos literalmente um no bra\u00e7o do outro. No in\u00edcio foi um abra\u00e7o do\u00eddo, dif\u00edcil. Por tr\u00e1s dele havia uma complexidade de sentimentos e de dores n\u00e3o cicatrizadas, mas ao mesmo tempo havia&nbsp; um amor puro e ing\u00eanuo, como os dos contos de fadas. Era a minha D\u00e9a de novo nos meus bra\u00e7os. Como eu esperei por aquele dia, meu Deus.<\/p>\n\n\n\n<p>E depois do abra\u00e7o doloroso veio o beijo. T\u00edmido no in\u00edcio, mas que num passar de segundos se transformou numa explos\u00e3o de toques e de del\u00edrios. Era algo t\u00e3o louco e m\u00e1gico que a sensa\u00e7\u00e3o que t\u00ednhamos era a de que est\u00e1vamos vivendo um sonho. N\u00e3o quer\u00edamos acordar, por isso, mant\u00ednhamos os olhos meio abertos com medo de que se o fech\u00e1ssemos todo encanto se quebraria. Mas para nossa sorte era tudo real, verdadeiro e intenso.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele era um beijo aguardado por muitos anos. Um reencontro de corpos, de desejos e sentimentos acumulados. Quer\u00edamos falar, mas tamb\u00e9m n\u00e3o nos permit\u00edamos desconectarmos. Nossos corpos estavam entrela\u00e7ados. Se tivesse um medidor de temperatura com certeza ele apontaria a voltagem m\u00e1xima. Por pouco n\u00e3o nos despimos e fizemos amor ali mesmo. Apesar de estar em frente a um cemit\u00e9rio, est\u00e1vamos em uma rua p\u00fablica com casas ao redor e vizinhos passando pelo local.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas nada e ningu\u00e9m podia atrapalhar aquele reencontro. Depois de muitos beijos e abra\u00e7os trocados e juras de amor, ela deitou no meu colo como fazia no passado e olhou firmemente nos meus olhos e me perguntou diretamente: \u201cN\u00e3o existe a possibilidade de voc\u00ea desistir dessa viagem? Eu quero ficar com voc\u00ea. Eu te amo\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Ouvir aquilo depois de tantos anos me acalentou o cora\u00e7\u00e3o. Como eu havia esperado por aquele momento. S\u00f3 que por tr\u00e1s de tudo aquilo havia uma hist\u00f3ria que ela desconhecia. Ela n\u00e3o tinha estado presente e n\u00e3o havia acompanhado meus traumas e inseguran\u00e7as causados pela perda do cabelo, e muito menos sabia que a decis\u00e3o repentina de minha mudan\u00e7a para Portugal passava por essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p>Era hora de confessar. N\u00e3o haveria outra oportunidade. Eu chorava muito e ela come\u00e7ou a ficar preocupada pensando que eu estivesse com alguma doen\u00e7a fatal ou qualquer coisa parecida.&nbsp; Meu choro era intenso, sofrido e marcado por anos de recolhimento e isolamento. Era dif\u00edcil pr\u00e1 mim falar sobre esse tema, mas eu precisava ser mais forte.<\/p>\n\n\n\n<p>Sem pensar peguei suas m\u00e3os e a coloquei no meu cabelo, melhor, na minha pr\u00f3tese. Ela estava t\u00e3o emocionada que n\u00e3o percebeu nada (talvez s\u00f3 eu percebesse porque era um cabelo normal). \u201cO que voc\u00ea t\u00e1 fazendo?\u201d- questionou sem entender minha rea\u00e7\u00e3o inesperada.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cVoc\u00ea n\u00e3o percebe nada diferente?\u201d, &#8211; eu perguntei todo constrangido.<\/p>\n\n\n\n<p>&#8211; \u201cN\u00e3o. Por qu\u00ea? \u201c, ela me questionou sem entender nada.<\/p>\n\n\n\n<p>Ela realmente n\u00e3o havia percebido. Ent\u00e3o insisti para que tocasse na pr\u00f3tese e soltei a frase que estava entalada na minha garganta: \u201cEu t\u00f4 indo pra Portugal, D\u00e9a, porque n\u00e3o me aceito como sou. Isso \u00e9 uma pr\u00f3tese\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Dizer aquilo abertamente foi um al\u00edvio, mas ao mesmo tempo eu tinha vontade de sumir. &nbsp;Eu n\u00e3o tinha coragem de encar\u00e1-la de novo depois da confiss\u00e3o. Ela come\u00e7ou a sorrir para me deixar mais aliviado e me abra\u00e7ou ainda mais forte. \u201cEnt\u00e3o \u00e9 por isso que voc\u00ea vai viajar?\u201d- perguntou surpresa.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cN\u00e3o h\u00e1 outra raz\u00e3o\u201d- respondi docemente. \u201cEu vou porque n\u00e3o suporto mais me esconder atr\u00e1s disso e eu preciso estar num lugar onde n\u00e3o conhe\u00e7a ningu\u00e9m para me libertar\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9a teve uma rea\u00e7\u00e3o t\u00e3o natural que isso me deixou mais \u00e0 vontade para tocar abertamente no tema. O pior ela j\u00e1 sabia. Ent\u00e3o, n\u00e3o havia mais segredos entre a gente. Falamos abertamente sobre o assunto e ela disse que entendia e aceitava minha decis\u00e3o. Ela fez uma jura que nunca me deixaria a partir daquele dia e que me esperaria o tempo que fosse e que juntos recome\u00e7ar\u00edamos nossas vidas do zero.<\/p>\n\n\n\n<p>Ter esse juramento num momento de extrema vulnerabilidade como aquele era o que eu necessitava para me fortalecer. Isso me faria viajar mais seguro. &nbsp;Todos j\u00e1 sabiam do meu maior \u201csegredo\u201d, incluindo uma das pessoas mais importantes do meu passado, D\u00e9a, e que agora havia voltado para minha vida. Eu sabia que o amor dela era o passaporte para um novo mundo de possibilidades que se abria diante de mim.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei \u00e0 Portugal com um novo semblante. Havia dentro de mim a inquietude pelos pr\u00f3ximos passos em uma terra diferente da minha, mas tamb\u00e9m havia a certeza que o meu futuro estaria garantido quando eu retornasse para o meu pa\u00eds.<\/p>\n\n\n\n<p>Agora mais do que nunca eu sabia que a minha passagem por aquela terra seria breve. Eu havia chegado at\u00e9 ali para fazer um processo de liberta\u00e7\u00e3o e cura interior. N\u00e3o havia outra oportunidade. Era a minha vez. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Abracei o meu amigo Tiago que me esperava no setor de desembarque do aeroporto de Lisboa e disse a ele que precisava ir ao banheiro sozinho. Ele n\u00e3o imaginava qual era minha inten\u00e7\u00e3o. Ele ficou aguardando do lado de fora. O banheiro estava vazio, mas mesmo assim fui em uma cabine e fechei a porta. Era agora ou nunca! &nbsp;Tirei com toda for\u00e7a do mundo a pr\u00f3tese e a joguei com raiva no cesto de lixo.<\/p>\n\n\n\n<p>Era uma raiva acumulada de muitos anos. Tudo se misturava naquela lixeira: o complexo de inferioridade, as festas que deixei de ir, as piscinas e praias que deixei de frequentar com medo da pr\u00f3tese cair, os coment\u00e1rios e olhares que me destru\u00edam por dentro. Eram muitos sentimentos entrecortados, mas eu estava feliz por ter dado aquele passo decisivo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de anos, de muitos anos, eu me sentia livre como um p\u00e1ssaro. Tinha medo de voar. Era como um p\u00e1ssaro rec\u00e9m-sa\u00eddo do ninho, com as asas fracas e d\u00e9bil, mas empurrado pela vida a voar. Haveriam quedas, mas o tempo me daria for\u00e7as para aperfei\u00e7oar meu voo.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao sair da cabine fui at\u00e9 um espelho e me olhei por longos minutos. Aquele era o novo Andr\u00e9 que estava nascendo. O passado tinha que ficar sepultado naquela lixeira. Lavei o meu rosto e molhei a cabe\u00e7a (que sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa de molhar sem a pr\u00f3tese incomodando). Enchi o peito de ar, respirei fundo e sa\u00ed confiante pela porta.<\/p>\n\n\n\n<p>Come\u00e7ava ali minha primeira experi\u00eancia como imigrante. Portugal abria as portas para uma nova vida. Os pr\u00f3ximo passos seriam conhecer minha \u201cnova casa\u201d e Sintra, a cidade onde eu iria trabalhar nos pr\u00f3ximos dias.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio de Di\u00e1rio de um imigrante, contarei como foi minha recep\u00e7\u00e3o numa casa portuguesa, a amizade sincera que fiz com outro brasileiro, os primeiros dias de adapta\u00e7\u00e3o e o primeiro trabalho em Sintra numa \u00e1rea totalmente da que eu estava acostumado.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>*** Os nomes dos personagens usados neste Di\u00e1rio foram trocados para preservar a identidade dos mesmos.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No relato de hoje da s\u00e9rie &#8220;Di\u00e1rio deum imigrante&#8221;, conhe\u00e7a o desfecho emocionante do reencontro com D\u00e9a, a revela\u00e7\u00e3o sobre o motivo da viagem para Portugal e de como um banheiro no aeroporto de Lisboa foi determinante para o renascimento de uma nova pessoa. 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