{"id":399,"date":"2023-04-03T18:13:51","date_gmt":"2023-04-03T21:13:51","guid":{"rendered":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/?p=399"},"modified":"2023-05-31T17:47:20","modified_gmt":"2023-05-31T20:47:20","slug":"diario-de-um-imigrante-4-sintra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/04\/03\/diario-de-um-imigrante-4-sintra\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 4"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"http:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-11.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-400\" width=\"881\" height=\"1242\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-11.png 340w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-11-213x300.png 213w\" sizes=\"(max-width: 881px) 100vw, 881px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Sintra &#8211; Imagem a\u00e9rea<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>No epis\u00f3dio anterior da s\u00e9rie&nbsp;<strong>\u201cDi\u00e1rio de um imigrante\u201d,&nbsp;<\/strong>parei no exato ponto onde havia deixado uma das cabines do banheiro masculino do aeroporto de Lisboa. Ent\u00e3o, enchi o peito de ar, respirei fundo e sa\u00ed confiante pela porta.&nbsp;<strong>(ver os epis\u00f3dios anteriores para entender a raz\u00e3o disso tudo).&nbsp;<\/strong>Ao sair da cabine fui at\u00e9 um espelho e me olhei por longos minutos. Aquele era o novo Andr\u00e9 que estava nascendo. O passado tinha que ficar sepultado naquela lixeira. Lavei o meu rosto e molhei a cabe\u00e7a (que sensa\u00e7\u00e3o maravilhosa de molhar sem a pr\u00f3tese incomodando).<\/p>\n\n\n\n<p>Era in\u00edcio do dia. Uma manh\u00e3 ensolarada de primavera onde a temperatura ainda estava bastante agrad\u00e1vel com resqu\u00edcios do ver\u00e3o que na Europa costuma ser bem marcante, principalmente julho e agosto, os meses mais quentes do ano. Eu nunca tinha estado fora do Brasil, ent\u00e3o, n\u00e3o sabia bem como se comportava o tempo. J\u00e1 tinha ouvido falar, mas sentir mesmo seria a primeira vez. Marinheiro de primeira viagem, minha mala estava lotada de roupas de inverno. Sem medo de exagerar, dos 64 kg de bagagem, 70 % tinha sido destinado aos casacos (risos). De frio pelo menos eu n\u00e3o morreria. Mas, voltando \u00e0 minha sa\u00edda do aeroporto, antes mesmo de ver os primeiros raios solares ap\u00f3s uma longa viagem seguida de conex\u00e3o e de pisar literalmente na capital Lisboa com os meus pr\u00f3prios p\u00e9s (sagu\u00e3o de aeroporto n\u00e3o conta), eu tinha que encarar o meu amigo Thiago de frente. Digo isso, pois ele seria a primeira pessoa a me ver sem a pr\u00f3tese- algo impensado por muitos e muitos anos-.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o houve palavras. Somente um abra\u00e7o apertado seguido de um sil\u00eancio constrangedor. Eu decidi quebrar o gelo com uma piada, algo t\u00e3o caracter\u00edstico do Thiago. Ele era o mais piadista do meu grupo de amigos e colegas. \u201cT\u00f4 muito feio?, perguntei de imediato. Ele me deu um soco de brincadeira no peito e da\u00ed sim j\u00e1 incorporado do \u201cesp\u00edrito Thiago de ser\u201d me disse: \u201cVoc\u00ea n\u00e3o faz meu tipo. Tenho que ser sincero\u201d. &nbsp;Os dois ca\u00edram na gargalhada e o clima ficou mais leve.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cPois bem, meu amigo. Esse sou eu\u201d, &#8211; retruquei um pouco t\u00edmido. Em seguida, passei a m\u00e3o na cabe\u00e7a. Era tudo muitoooo estranho. Eu me sentia totalmente nu. Parecia que todos me olhavam. Claro que era coisa da minha cabe\u00e7a, mas era assim que eu me sentia. \u201cCara, n\u00e3o sei como eu tive coragem de chegar at\u00e9 aqui, justo agora que eu voltei com a D\u00e9a\u201d. (havia contado por cima a hist\u00f3ria para ele quando nos falamos por telefone). Tratando de me animar ele disse que o mais importante era eu me fortalecer primeiro, me aceitar, e que o tempo resolveria tudo. E ele tinha total raz\u00e3o. S\u00f3 o tempo mesmo para resolver muitas coisas.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, Thiago nunca havia sido para mim um amigo pr\u00f3ximo, daqueles confidentes e que queremos estar sempre juntos. Ele era um colega que, \u00e0s vezes, ia \u00e0 minha casa e que se juntava \u00e0 minha turma nos finais de semana para churrascos ou festas- isso quando eu ia porque nas piores fases comecei a me isolar de tudo e de todos-. Apesar de n\u00e3o sermos confidentes, eu gostava dele porque era animado e literalmente botava fogo nas festas. Convivemos mais ou menos uns dois anos juntos e quando eu soube ele j\u00e1 havia se mudado para Portugal. Decidiu ir sem se despedir de ningu\u00e9m (confesso que talvez seja o melhor caminho a ser feito e sem despedidas). Ele viajou como turista e depois dos tr\u00eas meses ficaria ilegal, por isso, preferiu evitar abrir o jogo para todo mundo porque n\u00e3o se pode confiar em todas as pessoas. E estava cert\u00edssimo! &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu era muito mais amigo do seu primo Nestor e foi ele quem me colocou em contato com o Thiago quando eu decidi sair do Brasil. Falamos algumas vezes por e-mail e por liga\u00e7\u00e3o. Na \u00e9poca, eu n\u00e3o tinha celular e as liga\u00e7\u00f5es interurbanas eram um absurdo. Havia a oportunidade de ligar de um telefone p\u00fablico (ou orelh\u00e3o como se dizia), mas ele consumia as \u201cfichas telef\u00f4nicas\u201d em quest\u00e3o de minutos. Era um absurdo. No entanto, por telefone, e em nome da amizade cordial que a gente tinha estabelecido, eu confessei a ele que precisava sair do Brasil para me libertar daquele trauma do cabelo- nunca hav\u00edamos tocado nesse tema abertamente at\u00e9 ent\u00e3o-.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu sabia que todos comentavam por tr\u00e1s, e estou seguro que alguns com maldade. \u201cAh ele usa peruca\u201d. \u201cA peruca vai cair na piscina\u201d, como de fato caiu depois, mas nunca havia escutado isso abertamente de nenhuma pessoa. O mais importante era que ele estava disposto a me ajudar e antes do meu embarque tinha descoberto uma senhora portuguesa que alugava quarto para rapazes e ali j\u00e1 vivia um outro brasileiro<strong>: Angelo (esse sim virou um grande amigo),&nbsp;<\/strong>e por essas coincid\u00eancias do destino que ningu\u00e9m imagina, ele era da mesma cidade que eu vivia: Americana, no interior de S\u00e3o Paulo.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois do abra\u00e7o e das primeiras palavras trocadas, Thiago me apressou a sair porque tinha que trabalhar no in\u00edcio da tarde e est\u00e1vamos longe da casa onde eu ia ficar: Cac\u00e9m, cidade pr\u00f3xima \u00e0 outra muito famosa que eu j\u00e1 havia escutado falar: &nbsp;Sintra. Como j\u00e1 estava um pouco tarde e eu n\u00e3o queria atras\u00e1-lo disse que pod\u00edamos tomar um taxi.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando sa\u00ed do aeroporto e vi aquela quantidade de taxis bege claro (s\u00e3o todos dessa cor), fiquei assustado. Pensei: \u201cesse povo n\u00e3o deve saber o que \u00e9 \u00f4nibus ou andar a p\u00e9\u201d. Eu sempre fazia as duas coisas e nunca pegava taxi porque sempre achei um roubo esse lance da bandeira, mas aquele dia era uma exce\u00e7\u00e3o. Ao entrar no taxi ouvi pela primeira vez um portugu\u00eas t\u00edpico falando com o acento deles que \u00e9 algo t\u00e3o peculiar. Eu estava t\u00e3o cansado da viagem, das horas de conex\u00e3o e com fome que para mim aquele homem estava falando &nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;&nbsp;\u201cgrego\u201d, express\u00e3o que eu sempre ouvia quando as pessoas n\u00e3o entendiam algo.<\/p>\n\n\n\n<p>Apesar de n\u00e3o ter celular, havia levado uma mini c\u00e2mera fotogr\u00e1fica daquelas com rolos de filme ainda (s\u00f3 na faculdade havia chegado perto de uma profissional, mas tinha medo de tocar). Amava fotografia, mas n\u00e3o era a minha disciplina preferida, A que eu mais gostava era ITJ (Introdu\u00e7\u00e3o \u00e0s T\u00e9cnicas Jornal\u00edsticas), pois eu podia exercitar minha criatividade e escrever textos (que tamb\u00e9m eram escritos em m\u00e1quinas de datilografia. O computador estava apenas chegando \u00e0 minha universidade em 1995).<\/p>\n\n\n\n<p>Mesmo com a minha m\u00e1quina amadora de fotos eu estava feliz, pois ela seria a \u00fanica testemunha para eu mostrar depois para as pessoas que eu havia estado em outro pa\u00eds, sem contar que me conhecendo bem eu sabia que n\u00e3o faria fotos sem bon\u00e9. Agora tinha o agravante de estar sem a pr\u00f3tese, mas eu deixaria para pensar nisso depois.<\/p>\n\n\n\n<p>Com o taxi em movimento, fiquei abismado com o tamanho de Lisboa. Para mim era tudo imenso e ao mesmo tempo maravilhoso e instigante. Cada detalhe daquele novo mundo me chamava aten\u00e7\u00e3o: os pr\u00e9dios, os carros, as placas diferentes, as ruas. Eu parecia uma crian\u00e7a solta em uma loja de brinquedos ou em um parque de divers\u00e3o. Era como se um filme passasse diante dos meus olhos e na minha cabe\u00e7a. O que a vida e o destino estavam reservando para mim naquele lugar?<\/p>\n\n\n\n<p>Lembrei muito de minha m\u00e3e, pois aventureira como era, seguro que daria tudo para estar junto comigo. Tadinha! Ela jogava todas suas expectativas em mim porque sabia que eu era sua \u201cc\u00f3pia de cal\u00e7as\u201d. \u00c9ramos muito parecidos de g\u00eanio e de personalidade, por isso, muitas vezes, discut\u00edamos, mas eu a amava incondicionalmente e tinha raiva de saber que ela estaria para sempre impedida de andar por culpa de dois moleques irrespons\u00e1veis de moto. Revoltante!<\/p>\n\n\n\n<p>Pensei tamb\u00e9m em D\u00e9a. Com a ansiedade em torno da viagem, medo de imigra\u00e7\u00e3o, o medo de ficar sem a pr\u00f3tese, n\u00e3o havia tido muito tempo para pensar em n\u00f3s dois ou em uma vida futura. Ser\u00e1 que haveria uma nova chance para a gente?? Por que o destino havia pregado aquela pe\u00e7a comigo justo semanas antes da minha viagem? Eram muitos questionamentos dentro de mim e eu n\u00e3o tinha resposta para nenhum deles.<\/p>\n\n\n\n<p>Do aeroporto at\u00e9 a casa onde eu ficaria gastamos 30 minutos. Como eu n\u00e3o tinha trocado o dinheiro antes de sair do Brasil pedi para que Thiago pagasse com o seu e depois eu lhe daria. Achei engra\u00e7ado ao ouvir o valor da corrida dita pelo motorista. Escudo era a moeda local de Portugal em 2001 antes da mudan\u00e7a para o euro. Lembro que n\u00e3o foi barato, mas como n\u00e3o era um hor\u00e1rio de pico o valor foi mais acess\u00edvel que imaginava. Pagamos, agradeci ao motorista e fomos em dire\u00e7\u00e3o \u00e0 casa.<\/p>\n\n\n\n<p>Na Europa, como um todo, \u00e9 muito normal as pessoas morarem em pr\u00e9dios de apartamentos. H\u00e1 desde edif\u00edcios menores de um a tr\u00eas andares at\u00e9 alguns com 12 andares. \u00c9 raro voc\u00ea encontrar lugares com muitas casas. &nbsp;Pois bem, a minha \u201cnova casa\u201d que, na verdade, era um pr\u00e9dio pequeno, tinha apenas tr\u00eas andares e o meu era o segundo. Algo que me chamou a aten\u00e7\u00e3o de cara foram as fachadas. Todas coloridas em diferentes cores para diferenciar uma das outras j\u00e1 que todos os pr\u00e9dios eram id\u00eanticos por fora. O que os diferenciava eram as portas e janelas.<\/p>\n\n\n\n<p>O meu tinha a porta azul (amei porque era minha cor preferida). Bom sinal!. Thiago apertou a campainha. Do outro lado uma voz feminina com acento portugu\u00eas disse:\u201cEstou\u201d. Eu achei aquilo t\u00e3o estranho!!! Como uma pessoa pode atender uma porta dizendo que estava? Logo, descobri que o \u201cestou\u201d era uma maneira informal e eles usavam para atender o telefone tamb\u00e9m. &nbsp;&nbsp;<strong>(esse \u00e9 apenas um aperitivo de muitas descobertas que viriam na sequ\u00eancia, pois engana-se quem pensa que por falarmos portugu\u00eas nos entendemos perfeitamente. H\u00e1 palavras e express\u00f5es muito t\u00edpicas dos portugueses e que n\u00e3o usamos no Brasil. O estou era apenas a pontinha desse iceberg).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Thiago se identificou tentando imprimir um modesto acento portugu\u00eas, mas que dava para perceber nitidamente que tratava-se de um brasileiro disfar\u00e7ando o sotaque. Logo a porta se abriu e uma simp\u00e1tica portuguesa de cerca de 20 e poucos anos abriu a porta. Ela usava um moletom b\u00e1sico e os cabelos presos no alto da cabe\u00e7a. Sorridente nos convidou para entrar e imediatamente foi mostrar a habita\u00e7\u00e3o. Disse que se chamava Paula e que gostava muito do \u201csenhor Angelo\u201d. Era assim que se referiam aos homens e mulheres mesmo sendo jovens, e Angelo tinha a mesma idade que ela.<\/p>\n\n\n\n<p>Olhei rapidamente o quarto e apesar de pequeno estava muito limpo e organizado. A cama que seria minha j\u00e1 estava feita e uma c\u00f4moda com tr\u00eas gavetas seria meu novo arm\u00e1rio. Tr\u00eas jaquetas minhas j\u00e1 ocupariam todo espa\u00e7o. Disfarcei a frustra\u00e7\u00e3o por n\u00e3o ter um arm\u00e1rio, pois sempre odiei deixar minhas coisas acumuladas em gavetas ou dentro de malas. Tinha paix\u00e3o pelos cabides, ou seja, abrir meu guarda-roupa e poder escolher minhas roupas separando os cabides. N\u00e3o era hora de me prender a estas coisas. Eu j\u00e1 sabia que teria que abrir m\u00e3o de muitas coisas se quisesse passar pela experi\u00eancia de viver fora do Brasil.<\/p>\n\n\n\n<p>Feita as apresenta\u00e7\u00f5es do quarto, Paula me mostrou o restante da casa. Era um mini apartamento com uma sala muito pequena e cozinha. Paula dormia em outro quarto com sua av\u00f3 e eu teria que dividir com Angelo. Dizem que a primeira impress\u00e3o sempre fica. Muitas vezes, isso n\u00e3o se aplicou no meu dia a dia, mas com Paula tive qu\u00edmica. Era uma mo\u00e7a bem reservada, mas muito educada e sol\u00edcita. Quando estava me explicando algumas coisas da casa e do bairro sua av\u00f3 saiu do banho. H\u00e1 muito tempo viviam juntas e a senhora era como se fosse sua av\u00f3.&nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Sei que Paula naquele dia me disse o nome de sua av\u00f3, mas sou p\u00e9ssimo em memorizar nomes. Ent\u00e3o, ela me explicou que Angelo a chamava de av\u00f3 e que Paula tamb\u00e9m. Ent\u00e3o, que se eu quisesse poderia cham\u00e1-la assim. &nbsp;\u201cV\u00f3\u201d esse era o nome da minha av\u00f3 adotiva! Como ela me recordava minha av\u00f3 paterna Olga- uma das minhas grandes paix\u00f5es-. V\u00f3 Olga era a pessoa mais espetacular que eu conhecia: doce, meiga, fazia todas as minhas vontades e me chamava carinhosamente de \u201cbarangana\u201d. Cresci ouvindo-a me chamar assim e nunca lhe perguntei o significado desta palavra (<strong>se algu\u00e9m souber me explique)&nbsp;<\/strong>mas s\u00f3 podia ser algo bom vindo dela que foi uma das melhores pessoas que conheci em toda minha vida. Se eu tivesse que escolher 10000 vezes ela como av\u00f3, eu a escolheria.<\/p>\n\n\n\n<p>Na aus\u00eancia de minha av\u00f3 querida, eu teria um pouquinho de mimos da av\u00f3 portuguesa por ado\u00e7\u00e3o. Gostei das duas, da casa (tirando o arm\u00e1rio) e disse que ficaria com o quarto. Thiago, outra vez, pagou com seus escudos e depois se despediu porque ainda ia trabalhar numa cafeteria. Fiquei sozinho com as duas. Estava mortooo de fome. N\u00e3o havia comido nada h\u00e1 horas. Creio que elas perceberam minha cara de coitado e me convidaram para almo\u00e7ar. (<strong>preparam-se para esse momento de puro deleite para quem imaginar meu constrangimento na mesa porque n\u00e3o imaginava que me perguntariam aquilo sem ter nenhuma intimidade comigo).<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Havia uma sopa de legumes. Nunca fui f\u00e3 de sopas, mas minha m\u00e3e fazia muito em casa porque era um dos pratos preferidos do meu pai. Eu comia, mas sempre com p\u00e3o e muito queijo ralado por cima. O cheiro da sopa portuguesa era muito bom e tinha uma cara boa- apesar que quem v\u00ea cara n\u00e3o v\u00ea cora\u00e7\u00e3o-. Antes de come\u00e7ar a comer , v\u00f3 perguntou na lata para sua neta e eu quase engasguei com a \u00e1gua. &nbsp;\u201cPaula, onde est\u00e3os os cacetes? O senhor gosta de cacetinhos, senhor Andr\u00e9?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Se tinha um lugar para se esconder eu me apontaria em primeiro plano. Eu n\u00e3o sabia o que responder para aquela senhora. Literalmente travei e senti minha pele ficar vermelha. Acho que foi o calor que a pergunta me provocou. &nbsp;Por sorte, Paula se adiantou, levantou -se da mesa e pegou em cima da geladeira uma bandeja coberta com um guardanapo.<\/p>\n\n\n\n<p>\u201cO senhor pode se servir\u201d, disse Paula. Ainda chocado, me passou as coisas mais absurdas na cabe\u00e7a at\u00e9 mesmo que Thiago havia me levado para uma casa de orgias- pobres Paula e v\u00f3- . Aproveito para pedir desculpas formalmente por ter desconfiado da seriedade daquelas mulheres, mas tamb\u00e9m quando eu podia imaginar que os cacetinhos eram inocentes p\u00e3ezinhos de padaria???<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o conseguindo disfar\u00e7ar minha surpresa soltei que n\u00e3o imaginava que cacete era p\u00e3o. E que bom que n\u00e3o existia internet para se buscar o significado de cacete no Brasil porque a impress\u00e3o se inverteria e elas pensariam que estavam diante de um tarado. Inventei uma desculpa qualquer e comi aquela sopa como um condenado no corredor da morte come sua \u00faltima refei\u00e7\u00e3o. Eu degustava cada colherada como um presente dos c\u00e9us. Era muita fome acumulada. Acabei depois delas, mas meu desejo mesmo era ter acabado logo e repetido, tamanha a fome que eu estava, mas me contive. Disse que estava satisfeito, mas precisava de um banho e dormir.<\/p>\n\n\n\n<p>Depois de um banho relativamente r\u00e1pido porque a energia funcionava com uma bomba a g\u00e1s que precisava aquecer, fui para o quarto. Perdi a no\u00e7\u00e3o de quantas horas seguidas eu dormi. Tenho sono leve e acordo facilmente, mas n\u00e3o vi nem a hora que o Angelo chegou do trabalho. Tamb\u00e9m ele j\u00e1 se mostrou ali um \u00f3timo companheiro de quarto. Nem me conhecia, chegou cansado do trabalho e nem acendeu a luz do quarto para n\u00e3o me acordar.<\/p>\n\n\n\n<p>Fui conhec\u00ea-lo s\u00f3 no outro dia quando acordei por volta das 11h com raios do sol refletindo na minha janela. Ele estava de folga naquela quarta-feira, mas estava descansado na cama acordado. Quando me viu levantar saltou e veio me dar um abra\u00e7o. \u201cCara, se n\u00e3o fosse pelo seu ronco eu achava que voc\u00ea tinha morrido.\u201d, disse \u00e0s gargalhadas. Eu n\u00e3o sabia onde botar a cara. Nem conhecia ele e j\u00e1 tinha roncado no quarto, mas o tranquilizei dizendo que isso s\u00f3 acontecia quando estava muito cansado. Foi empatia ao mesmo instante. Angelo me deixou t\u00e3o \u00e0 vontade que parecia que eu o conhecia h\u00e1 anos. Em quest\u00e3o de 30 minutos resumi minha vida pra ele, principalmente o lance do cabelo e meu encontro com D\u00e9a.<\/p>\n\n\n\n<p>Ele me convidou para dar uma volta pelo bairro para me mostrar o mercado, padaria e tamb\u00e9m me levaria para trocar o dinheiro e comprar um passe de trem\/metr\u00f4 que me permitiria deslocar at\u00e9 Sintra. Angelo me contou que na noite passada no bar que trabalhava (Periquita) havia escutado que tinha um restaurante precisando de gar\u00e7om e que ele era amigo do principal gar\u00e7om de l\u00e1 e poderia me indicar. &nbsp;Fiquei feliz porque seria a oportunidade de economizar e depois viajar pelo pa\u00eds- essa era minha inten\u00e7\u00e3o inicial-.<\/p>\n\n\n\n<p>Por outro lado, algo me perturbava: eu nunca havia carregado uma bandeja na minha vida e sempre fui muito despistado. Eu j\u00e1 imaginava como seria essa minha experi\u00eancia, ou seja, a furada que eu estaria me metendo, mas j\u00e1 que tava na chuva era preciso me molhar.<\/p>\n\n\n\n<p>De minha casa at\u00e9 a esta\u00e7\u00e3o final em Sintra era pouco tempo e precisava usar apenas um passe. Angelo falou com seu amigo gar\u00e7om. Era um angolano chamado Beto- que tamb\u00e9m veio a se tornar um grande amigo-. Ficou marcado que ele me levaria naquela tarde mesmo porque era o seu \u00fanico dia de folga e assim n\u00e3o haveria risco de eu me perder. Sintra n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o grande, mas a princ\u00edpio, para andar nas suas ruas com tantos com\u00e9rcios e subidas e descidas \u00edngremes confunde um pouco.<\/p>\n\n\n\n<p>Tomamos um caf\u00e9 da manh\u00e3 na rua, e em seguida, fomos de trem para Sintra. Agradeci a Deus por ter colocado um amigo t\u00e3o legal no meu caminho, pois Thiago foi uma grande decep\u00e7\u00e3o e eu s\u00f3 vi uma \u00fanica vez mais no curto per\u00edodo que fiquei ali. Angelo e Beto foram os grandes amigos que fiz ali naquele ano.<\/p>\n\n\n\n<p>Ao chegar na esta\u00e7\u00e3o de Sintra e ir caminhando pelas ruas at\u00e9 chegar \u00e0 pra\u00e7a central e \u00e0 regi\u00e3o dos com\u00e9rcios \u2013 basicamente bares, restaurantes e lojas tur\u00edsticas- Angelo foi me contando curiosidades da cidade e porque Sintra era considerada uma das cidades mais hist\u00f3ricas e visitadas de Portugal. Foi paix\u00e3o imediata pela cidade, hist\u00f3ria, arquitetura. Tudo era bonito ali e me chamava aten\u00e7\u00e3o. <\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-12.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-401\" width=\"888\" height=\"1254\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-12.png 340w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-RETRATO-12-213x300.png 213w\" sizes=\"(max-width: 888px) 100vw, 888px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Caminhamos por todo centro e, \u00e0s 15h em ponto estava diante do \u201cTacho Real\u201d, o meu primeiro trabalho no exterior. Ele ficava bem no alto e l\u00e1 de cima era poss\u00edvel ter uma dimens\u00e3o da beleza de Sintra.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;O restaurante fechava depois do almo\u00e7o e voltava a abrir \u00e0s 16 horas. Haviam marcado comigo uma hora antes porque assim teriam tempo de conversar antes da abertura. Minha inseguran\u00e7a estava a mil.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a vida dava voltas!! H\u00e1 poucos meses sequer eu havia imaginado estar t\u00e3o longe de Americana. Eu s\u00f3 queria encontrar um trabalho como jornalista. Agora eu estava a um oceano longe de minha casa e na porta de um restaurante prestes a entrar para uma jornada de muitas descobertas que viria em seguida. &nbsp;O cora\u00e7\u00e3o parecia que sairia da boca, mas n\u00e3o tinha escapat\u00f3ria.&nbsp;<strong>Era preciso dar o primeiro passo e eu dei!<\/strong><\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"750\" height=\"480\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-PAISAGEM-10.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-402\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-PAISAGEM-10.png 750w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/BLOG-ANDRE-Fotos-PAISAGEM-10-300x192.png 300w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>VEM A\u00cd:<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio de Di\u00e1rio de um imigrante, contarei como foi minha chegada ao restaurante, os primeiros micos na cozinha, as dificuldades com o idioma, e como uma liga\u00e7\u00e3o surpresa mudou todo o rumo dessa hist\u00f3ria. &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>*** Os nomes dos personagens usados neste Di\u00e1rio foram trocados para preservar a identidade dos mesmos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No quarto cap\u00edtulo da s\u00e9rie descubra como foi a minha sa\u00edda do aeroporto ap\u00f3s deixar um passado triste para tr\u00e1s naquele banheiro, a chegada \u00e0 uma nova casa, a primeira conviv\u00eancia com portugueses e a dif\u00edcil adapta\u00e7\u00e3o a um trabalho totalmente diferente do meu.<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":400,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[123],"tags":[95,40,94,93,97,96,36,92],"class_list":["post-399","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diario-de-um-imigrante","tag-brasileiros-pelo-mundo","tag-imigrantes","tag-imigrantes-brasileiros","tag-intercambio-2","tag-portugal-2","tag-sintra-2","tag-viver-na-europa","tag-viver-no-exterior"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.7 - 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Vivo atualmente em Barcelona onde trabalho como correspondente internacional, mas j\u00e1 morei em outros pa\u00edses, como Portugal, Irlanda, EUA e It\u00e1lia onde sempre estive envolvido com projetos na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o- minha grande paix\u00e3o-. Como roteirista, destaco a coautoria na sinopse e no 1 cap\u00edtulo da novela \"O S\u00e9timo Guardi\u00e3o\" (TV Globo\/2019), o document\u00e1rio \"Quem somos n\u00f3s?\", sobre exclus\u00e3o social, e o curta-metragem \"As cartas de Sofia\". Como rep\u00f3rter, trabalhei em grandes grupos de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, como RBS, RAC e RIC. Ganhei o pr\u00eamio Yara de Comunica\u00e7\u00e3o (categoria impresso) em 2013 com uma reportagem sobre as diferentes fam\u00edlias e hist\u00f3rias de vida \u00e0s margens do rio Piracicaba (SP). 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