{"id":488,"date":"2023-04-13T17:55:33","date_gmt":"2023-04-13T20:55:33","guid":{"rendered":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/?p=488"},"modified":"2023-04-26T20:09:03","modified_gmt":"2023-04-26T23:09:03","slug":"diario-de-um-imigrante-cap-6-sintra-e-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/04\/13\/diario-de-um-imigrante-cap-6-sintra-e-lisboa\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um imigrante- Cap 6"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/sintramou2.png\" alt=\"\" class=\"wp-image-491\" width=\"837\" height=\"569\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Castelo dos Mouros, em Sintra, um dos pontos tur\u00edsticos mais visitados e cen\u00e1rio da miniss\u00e9rie &#8220;Os Maias (TV Globo)&#8221;<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No epis\u00f3dio anterior da s\u00e9rie&nbsp;\u201cDi\u00e1rio de um imigrante\u201d, o destino, outra vez sorrateiro como sempre, decidiu interferir na minha caminhada na Europa. Duas semanas depois que eu havia chegado a Portugal um novo telefonema de D\u00e9a, desta vez, aos prantos, me fez repensar toda minha hist\u00f3ria at\u00e9 ali. Eu n\u00e3o esperava por aquilo. Era muita responsabilidade e eu n\u00e3o sabia se estaria preparado para enfrent\u00e1-la. Eu tinha que passar confian\u00e7a a ela at\u00e9 porque havia insistido para reencontr\u00e1-la antes de minha viagem. N\u00e3o era momento de fugir. &nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Ela chorava do outro lado da linha e dizia que havia feito a maior loucura de sua vida por amor: tinha posto fim definitivo ao seu casamento e estava disposta a viver comigo uma nova hist\u00f3ria. Mas, e agora? N\u00e3o \u00e9ramos mais adolescentes, pelo contr\u00e1rio. &nbsp;\u00c9ramos dois adultos. Ela, m\u00e3e de duas crian\u00e7as, e ainda casada. Eu, desempregado no Brasil, trabalhando como gar\u00e7om em Portugal, e fugindo literalmente das pessoas para curar traumas do passado.<\/p>\n\n\n\n<p>O que fazer??? Ela n\u00e3o queria me pressionar, mas ao mesmo tempo dizia que s\u00f3 havia tomado coragem por mim e que se eu a deixasse agora depois de tudo que ela n\u00e3o saberia onde buscaria for\u00e7as para reagir. Eu me sentia diretamente culpado por aquela situa\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o sabia o que responder. Minha cabe\u00e7a dava mil voltas. Minha voz ao telefone com ela era um misto de felicidade e de esperan\u00e7a, mas tamb\u00e9m de ang\u00fastia e medo. Eu a queria muito. A desejava mais do que nunca. Fazia mil planos na minha cabe\u00e7a. Por\u00e9m, no mesmo instante recuava.<\/p>\n\n\n\n<p>N\u00e3o podia retornar ao Brasil. Tinha acabado de chegar em Portugal. Ainda n\u00e3o tinha vivido nada de minha hist\u00f3ria ali. Queria tanto conhecer outras cidades, aprender mais da cultura portuguesa, enfim, viver aquela experi\u00eancia porque n\u00e3o sabia quando teria outra oportunidade de voltar \u00e0 Europa. Por outro lado, novamente havia despertado uma paix\u00e3o adormecida h\u00e1 anos e eu a queria perto de mim. Sonhava em ter a oportunidade de, finalmente, viver nossa hist\u00f3ria sem amarras. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ah se as passagens a\u00e9reas para o exterior n\u00e3o fossem caras. Se n\u00e3o houvesse um oceano nos separando. Se&#8230; se&#8230; Eram muitos questionamentos. Se n\u00e3o fosse pela ajuda financeira de minha tia eu n\u00e3o teria tido condi\u00e7\u00f5es de comprar as passagens, sem contar que eu estava ali por uma raz\u00e3o muito forte para mim e que havia me impedido de viver nos \u00faltimos anos: o trauma das pr\u00f3teses. Agora que estava sem us\u00e1-las por alguns dias era tudo muito estranho. A sensa\u00e7\u00e3o era que estava faltando uma parte de mim, mas eu me recusava usar bon\u00e9s novamente. Durante longos anos eles haviam sido minhas muletas e disfarces, mas eu havia me libertado deles e n\u00e3o queria voltar a us\u00e1-los, mas tamb\u00e9m n\u00e3o podia dizer que me aceitava.<\/p>\n\n\n\n<p>A imagem que eu via refletida no espelho n\u00e3o era a que eu havia sonhado durante tantos anos. Ali\u00e1s, eu odiava o que via. Aquilo me machucava e eu me questionava: \u201cComo outra pessoa, no caso, a D\u00e9a, pode dizer que me ama se nem eu mesmo me amo?\u201d . \u201cComo posso dar amor \u00e0 outra pessoa se eu n\u00e3o me aceito e n\u00e3o me sinto bem?\u201d. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eram questionamentos que eu fazia diariamente nas minhas viagens de trem at\u00e9 o trabalho, nas intermin\u00e1veis quatro horas de descanso entre um turno e outro, e principalmente na hora de dormir. Quando o sono n\u00e3o vinha- e isso era uma rotina cada vez mais constante, era em D\u00e9a que eu pensava. Se para mim estava dif\u00edcil eu imaginava para ela com dois filhos. Por sorte, ela vivia na casa da m\u00e3e com sua irm\u00e3 ca\u00e7ula e isso n\u00e3o a deixava sentir-se t\u00e3o sozinha. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>A nossa forma de contato era por chamadas de cinco minutos de telefones p\u00fablicos, mas as fichas iam numa velocidade colossal. Era coloc\u00e1-las e j\u00e1 acabar. D\u00e9a me ligava algumas vezes de sua casa, mas tamb\u00e9m estava preocupada com a conta. Ent\u00e3o, combinamos de falar somente aos domingos, \u00e0s 20h, do Brasil e meia noite para mim, em Portugal. Eu chegava correndo \u00e0 esta\u00e7\u00e3o para pegar o \u00faltimo trem da noite e ia direto para o telefone aguardar sua chamada. Era o melhor momento da semana. Fal\u00e1vamos pouco, mas o suficiente para acalentar nossos cora\u00e7\u00f5es. E nos outros dias da semana eu escrevia intermin\u00e1veis cartas durante minhas quatro horas de descanso e as depositava no mesmo dia nos correios. Era uma carta por dia, exceto aos s\u00e1bados, que a ag\u00eancia de Sintra estava fechada e aos domingos porque falaria com ela por telefone. Eram folhas e folhas de papel, promessas de um amor interrompido no passado e esperan\u00e7a de uma nova vida no presente. Mas esse momento era agora? Haveria um futuro para a gente ou era somente mais uma armadilha do ardiloso destino?<\/p>\n\n\n\n<p><strong>GRAVA\u00c7\u00c3O DE MINISS\u00c9RIE EM SINTRA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Desde muito pequeno eu gostava de escrever e sabia o que queria ser \u201cquando crescesse\u201d: um escritor. Era essa a resposta que dava quando me faziam a cl\u00e1ssica pergunta sobre o que voc\u00ea quer ser quando crescer? Mas, aos 14 anos, quando vi a novela \u201cVale Tudo\u201d, (TV Globo -1988), pela primeira vez, eu coloquei na minha cabe\u00e7a que queria ser um escritor de novelas. Era incr\u00edvel a maneira como os autores criavam as cenas, os di\u00e1logos, as reviravoltas, e quem assistiu Vale Tudo sabe do que estou dizendo. Maria de F\u00e1tima, Odete Roitman \u2013 e a enigm\u00e1tica pergunta que parou o Brasil por alguns dias na semana de Natal de 1988: \u201cQuem matou Odete Roitman?\u201d.<\/p>\n\n\n\n<p>Na \u00e9poca do vestibular optei em cursar jornalismo porque j\u00e1 amava escrever, mas sem nunca deixar os cursos de roteiro e de teatro de lado. Transitava bem nestes tr\u00eas mundos. J\u00e1 em Portugal, quando descobri que Sintra havia sido cen\u00e1rio de uma s\u00e9rie de TV h\u00e1 meses antes de minha chegada eu fiquei louco! Sim, a cidade foi uma das loca\u00e7\u00f5es da miniss\u00e9rie \u201cOs Maias\u201d, baseada na obra do escritor portugu\u00eas E\u00e7a de Queiroz, e protagonizada pelos atores Ana Paula Ar\u00f3sio e F\u00e1bio Assun\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n\n<p><em>Os Maias<\/em>&nbsp;retratava a decadente aristocracia portuguesa na segunda metade do s\u00e9culo XIX, atrav\u00e9s da tr\u00e1gica hist\u00f3ria de uma tradicional fam\u00edlia lisboeta.&nbsp;<strong> <\/strong>Eles gravaram por duas semanas em Portugal. Em Sintra, no Castelo dos Mouros e nas fachadas da Quinta da Regaleira e da Quinta da Riba Fria (cen\u00e1rio da casa de Maria Monforte, personagem da atriz Simone Spoladore). \u00d3bvio que tive que passar nestes locais para v\u00ea-los mais de perto. Ficava imaginando uma obra minha sendo gravada. Que emo\u00e7\u00e3o deveria ser ver um texto ganhar vidas e sair do papel.<\/p>\n\n\n\n<p>Havia vivido isso um ano antes ao ver meu document\u00e1rio \u201cQuem somos n\u00f3s?\u201d, meu primeiro trabalho profissional como jornalista virar uma realidade. Tinha sido escolhido para representar o setor audiovisual de minha cidade em um Fundo Municipal de Cultura. Mas o document\u00e1rio era com personagens reais e falava sobre exclus\u00e3o social. Foi um trabalho lindo e que me deu muito orgulho, pois foi o meu primeiro depois de formado. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Mas eu queria vivenciar tamb\u00e9m o outro lado: o da fic\u00e7\u00e3o. Sonhava em ver meus atores favoritos encenando personagens criados exatamente para eles. Me inspirava na personagem Maria de F\u00e1tima (Gloria Pires), em \u201cVale Tudo\u201d. Para mim, a melhor personagem de nossa teledramaturgia de todos os tempos.<\/p>\n\n\n\n<p>Estar em outro pa\u00eds e no lugar de loca\u00e7\u00f5es de filmes, novelas e miniss\u00e9ries era um sonho, sem contar que a arquitetura de Sintra ajudava a sonhar acordado<strong>. <\/strong>Localizada \u00e0 cerca de 30 km da capital Lisboa, Sintra \u00e9 uma vila rodeada de verde por todos lados e cercada pelos seus castelos que se erguem na serra. \u00c9 uma cidade encantadora, arborizada, sempre lotada de turistas, de bons restaurantes, uma cidade vibrante, contagiante e com muita Cultura.<\/p>\n\n\n\n<p>Aproveitei para conhecer os locais de grava\u00e7\u00e3o durante meu hor\u00e1rio de almo\u00e7o, mas somente passei em frente e fiz algumas fotos. No outro dia eu teria minha primeira grande aventura em Portugal. Era minha folga e eu havia decidido conhecer Lisboa. Era imposs\u00edvel estar h\u00e1 dias no pa\u00eds e ter conhecido somente a Capital de dentro de um taxi no trajeto do aeroporto at\u00e9 minha casa e ainda cansado da longa viagem.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Trailer Os Maias\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/kejpbbjRzmE?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><\/figure>\n\n\n\n<p>Eu j\u00e1 tinha um roteiro bem definido para Lisboa. O primeiro lugar que eu queria conhecer era o famoso jornal \u201cDi\u00e1rio de Not\u00edcias\u201d. Um dos meus professores na faculdade havia dado uma aula sobre imprensa internacional e nunca me esqueci de alguns dos principais jornais impressos do mundo, e o portugu\u00eas estava nesta lista. Despretensiosamente e, confesso, sem nenhuma esperan\u00e7a eu tinha levado um curr\u00edculo impresso. Vai que&#8230;.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria um sonho conhecer a reda\u00e7\u00e3o de um jornal impresso no exterior, saber como eles trabalhavam, acompanhar uma pauta nas ruas. Havia feito isso no Brasil ao conhecer a reda\u00e7\u00e3o do jornal \u201cO Estado de S\u00e3o Paulo\u201d, e foi ali que me apaixonei por reda\u00e7\u00e3o. Naquela \u00e9poca, em 1997, eu j\u00e1 sabia qual seria a \u00e1rea que eu queria dentro do jornalismo, e ao contr\u00e1rio de muitos, n\u00e3o era TV ou r\u00e1dio. Era jornalismo impresso. Me fascinava ver a diagrama\u00e7\u00e3o de um jornal, as fotos, as legendas, a manchete e imaginar tudo que havia passado com o rep\u00f3rter at\u00e9 chegar aquele ponto de ver sua pauta ganhar vida. Nascia ali um rep\u00f3rter de rua e aquilo me seguiu por toda minha jornada e me segue at\u00e9 hoje.<\/p>\n\n\n\n<p><strong>UMA LISBOA ENCANTADORA<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>O trem era o transporte mais f\u00e1cil e pr\u00e1tico para chegar a Lisboa saindo de Sintra. A parada tinha que ser na esta\u00e7\u00e3o ferrovi\u00e1ria do Rossio, que \u00e9 a mais central da cidade, e ficava num lindo pr\u00e9dio de 1886, com acesso tanto pelo metr\u00f4 Restauradores (linha azul) quanto pelo metr\u00f4 Rossio (linha verde). Eu j\u00e1 havia me informado em Sintra sobre a localiza\u00e7\u00e3o do jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias. Ele ficava na charmosa avenida da Liberdade, uma das principais de Lisboa. Angelo tinha me falado que quando eu chegasse ali realmente sentiria que estava em outro pa\u00eds. N\u00e3o tinha nada a ver com o sossego de Cac\u00e9m e nem com a agita\u00e7\u00e3o tur\u00edstica de Sintra.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/lisboa3-1.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-492\" width=\"563\" height=\"750\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/lisboa3-1.jpeg 750w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/lisboa3-1-225x300.jpeg 225w\" sizes=\"(max-width: 563px) 100vw, 563px\" \/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>A avenida liga a pra\u00e7a dos Restauradores \u00e0 Pra\u00e7a do Marqu\u00eas de Pombal. Com cerca de 90 m de largura e 1100 m de comprimento, conta com v\u00e1rias faixas e largos passeios decorados com jardins e cal\u00e7ada \u00e0 portuguesa. Quando cheguei \u00e0 esta\u00e7\u00e3o do Rossio me informei qual seria a maneira mais f\u00e1cil de ir at\u00e9 o jornal. Me informaram que eu teria pelo menos uma hora de caminhada mais ou menos ou podia optar pelo transporte p\u00fablico. Como eu queria conhecer a cidade decidi ir caminhando.<\/p>\n\n\n\n<p>Fazia muito calor. Por sorte, eu estava com roupas leves e havia levado \u00e1gua e sandu\u00edche. A sensa\u00e7\u00e3o de liberdade era muito grande. E por coincid\u00eancia do destino eu estava justamente em uma avenida que levava esse nome. Eu caminhava e pensava ao mesmo tempo sobre os mist\u00e9rios da vida. H\u00e1 meses atr\u00e1s eu nunca havia pensado que estaria vivendo em outro pa\u00eds. Era tudo muito estranho. Por mais que eu me sentisse sozinho ali era reconfortante saber que eu havia chegado at\u00e9 aquele ponto por meu desejo de vencer. E depois de tantos anos enclausurado dentro de complexos de inferioridade, eu estava vivendo uma nova realidade. Tudo para mim era novidade naquele pa\u00eds e isso me fascinava. <strong><\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>Claro que eu lembrava de D\u00e9a tamb\u00e9m, mas algo me empurrava a estar ali. Eu sentia dentro de mim que por mais que a amasse e quisesse viver aquela hist\u00f3ria, eu tinha que dar um tempo para mim mesmo e viver o m\u00e1ximo poss\u00edvel daquela experi\u00eancia. Quantos gostariam de estar no meu lugar ou dariam tudo para estar ali e n\u00e3o podiam? Nos \u00faltimos dias eu vinha pensando muito na minha situa\u00e7\u00e3o. Sei que poderia estar sendo ego\u00edsta e estava, mas tenho que reconhecer que, no passado, ela acabou se afastando de mim por brigas, e desiludida se envolveu com outro e acabou engravidando e casando.<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, ela tamb\u00e9m havia feito escolhas equivocadas de casar com uma pessoa sem am\u00e1-la. Eu precisava antes de qualquer coisa cuidar do meu interior e cicatrizar minhas feridas de alma. Depois viria o amor. E se fosse forte ele saberia esperar, afinal, hav\u00edamos ficado distantes sete anos e o destino nos unido novamente depois de tantos anos. N\u00e3o seria alguns meses ou um ano- tempo que eu planejava estar fora do Brasil- que iria nos separar. N\u00f3s \u00edamos encontrar uma maneira de ficar juntos.<\/p>\n\n\n\n<p>Me recordo que, naquela manh\u00e3, o dia estava insuportavelmente quente. Na Europa, as temperaturas costumam ser bem extremas. No inverno faz muito frio, mas no ver\u00e3o faz muito, mas muito calor. E aquele era um daqueles dias intensos.<\/p>\n\n\n\n<p>Inspirada na Champs-\u00c9lys\u00e9es, da Fran\u00e7a, a Avenida da Liberdade conta com v\u00e1rias faixas e cal\u00e7adas \u00e0 portuguesa com bel\u00edssimos jardins. Isso ajudava a amenizar o calor. No meio do caminho at\u00e9 a reda\u00e7\u00e3o vi uma banca de jornal e parei para comprar o exemplar do dia do Di\u00e1rio de Not\u00edcias. Ao abri-lo, veio a primeira surpresa: apesar de falarmos o mesmo idioma, a maneira de escrever e de falar dos portugueses, muitas vezes, \u00e9 bastante diferente da nossa, e isso eu ia sentindo no dia a dia de conviv\u00eancia com eles. V\u00e1rias vezes eu tinha dificuldade de entender o que eles falavam. O acento forte e o chiado na voz era algo que os caracterizava bem. Alguns falavam t\u00e3o r\u00e1pido que eu tinha que perguntar duas ou tr\u00eas vezes a mesma coisa.<\/p>\n\n\n\n<p>Enquanto lia as not\u00edcias do dia mal imaginava que na tarde seguinte o mundo todo estaria dando a mesma not\u00edcia: os atentados de 11 setembro nos EUA. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 estava andando h\u00e1 mais de 40 minutos e o que mais ouvia dos portugueses nas ruas era que o local estava muitoo longe e que eu devia pegar um autocarro (\u00f4nibus) em Portugal, mas para quem j\u00e1 havia andado tanto n\u00e3o custava andar um pouco mais. O que mais me impressionava era a beleza dos pr\u00e9dios, as est\u00e1tuas espalhadas pelos jardins, as fontes de \u00e1gua. E algo muito tradicional por todo pa\u00eds: as fachadas de muitos pr\u00e9dios e com\u00e9rcios em diferentes tonalidades que em nada lembrava o cinza de algumas cidades, como de S\u00e3o Paulo, por exemplo. O colorido de Portugal, principalmente de Lisboa, me deixava feliz s\u00f3 de olhar.<\/p>\n\n\n\n<p>Quase uma hora e meia depois de caminhada, finalmente, eu avistava de longe o imponente e cl\u00e1ssico pr\u00e9dio do jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias. De longe ele j\u00e1 era suntuoso, mas quando voc\u00ea se aproximava mais era imposs\u00edvel n\u00e3o se encantar com a arquitetura. O pr\u00e9dio de oito andares foi inaugurado em 1940 e foi projetado pelo arquiteto Pardal Monteiro. Dentre as visitas ilustres, figuras como D. Juan de Borb\u00f3n, pai do rei Juan Carlos de Espanha e av\u00f4 do atual rei Felipe VI, Juscelino Kubitschek, presidente do Brasil, o cineasta Manoel de Oliveira (que bateu \u00e0 porta para agradecer suplemento dedicado ao seu centen\u00e1rio), o escritor Jos\u00e9 Saramago, dentre outros. O t\u00edtulo em letras g\u00f3ticas o tornava ainda mais atraente.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/diario3.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-493\" width=\"750\" height=\"563\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/diario3.jpeg 1000w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/diario3-300x225.jpeg 300w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/04\/diario3-768x576.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 750px) 100vw, 750px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\">Imponente fachada do jornal Di\u00e1rio de Not\u00edcias, em Lisboa<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>O jornal havia nascido no tradicional bairro Alto, em 1864. Era muita hist\u00f3ria para conhecer. Como rep\u00f3rter bem curioso eu queria literalmente invadi-lo e quem sabe conhecer o diretor de reda\u00e7\u00e3o e pedir um est\u00e1gio ou um trabalho como correspondente? Mas do sonho \u00e0 realidade, muitas vezes, existe uma estrada grande a ser percorrida. Era n\u00edtido que n\u00e3o me deixariam entrar, a come\u00e7ar porque eu n\u00e3o estava em trajes adequados- <strong>Aqui fica uma dica: Eles s\u00e3o mais rigorosos e formais que n\u00f3s brasileiros com os trajes.<\/strong> &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Ent\u00e3o, li\u00e7\u00e3o aprendida: se quero ser respeitado, principalmente bem recebido em um local no exterior, a vestimenta faz diferen\u00e7a num primeiro momento. Eu podia dizer que era um jornalista brasileiro e que queria conhecer a reda\u00e7\u00e3o, mas vestido com bermuda, suado, com cara de cansado e com sede, eu estava mais para um pedinte de rua que para um profissional da comunica\u00e7\u00e3o. N\u00e3o me deixaram entrar, claro, mas aceitaram pegar o meu curr\u00edculo e enviar para a reda\u00e7\u00e3o. N\u00e3o tenho d\u00favidas que quando virei as costas jogaram no lixo, mas antes deram uma olhadinha para certificar-se que eu dizia a verdade. Eu era muito inocente em acreditar que dariam um emprego para um imigrante com tantos jornalistas portugueses esperando uma oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Teimoso como sempre pus na minha cabe\u00e7a que depois de alguns dias voltaria ali para uma nova tentativa. Cansado, com fome e com muito sono eu j\u00e1 n\u00e3o tinha mais for\u00e7a e \u00e2nimo para voltar caminhando e acabei provando o autocarro deles, e foi t\u00e3o r\u00e1pido que logo cheguei \u00e0 esta\u00e7\u00e3o. Queria s\u00f3 voltar para casa, tomar um banho, comer algo e descansar.<\/p>\n\n\n\n<p>Na viagem de retorno \u00e0 Cacem fui me dando conta que a vida de um imigrante n\u00e3o era o que eu imaginava e muito menos o sonho dourado que muitos pintavam. Em muitos casos voc\u00ea era visto com maus olhos, com preconceito e desconfian\u00e7a. Os olhares eram de cobran\u00e7a como se eles te acusassem de estar ali tentando roubar vaga que seriam dos portugueses. S\u00f3 que muitos moradores locais n\u00e3o se sujeitavam aos subempregos, como em obras, faxinas e em restaura\u00e7\u00e3o (bares e lanchonetes), e isso ficava com os estrangeiros, no caso, com brasileiros que viviam ilegalmente no pa\u00eds. Eu teria ainda alguns meses at\u00e9 ficar ilegal, mas ao menos n\u00e3o podia queixar-me, pois estava trabalhando e o dinheiro mesmo sendo pouco me ajudaria a poupar minhas economias e viajar para as cidades vizinhas.<\/p>\n\n\n\n<p>O DIA QUE VIROU NOITE<\/p>\n\n\n\n<p>Na manh\u00e3 de 11 de setembro de 2001, acordei como de costume, tomei meu caf\u00e9 da manh\u00e3 (os famosos cacetinhos portugueses, queijo, manteiga e cereais). Era isso que eu adorava comer de manh\u00e3. Eu ainda estava cansado do dia anterior, mas ao menos tinha conhecido um pouco de Lisboa e chegado at\u00e9 o jornal, mas eu queria voltar com calma e conhecer outros lugares. Talvez na pr\u00f3xima semana.<\/p>\n\n\n\n<p>Cheguei ao trabalho, contei sobre minha folga aos companheiros e me preparei psicologicamente para o dia que viria em seguida, principalmente para as horas intermin\u00e1veis na pra\u00e7a at\u00e9 o jantar. Havia dias que eu at\u00e9 preferia o restaurante lotado porque assim passava mais r\u00e1pido. A hora que eu mais gostava era a de voltar para casa. Realmente eu odiava ser gar\u00e7om, e n\u00e3o era por causa da equipe ou do restaurante, pelo contr\u00e1rio, havia sido muito acolhido por eles e at\u00e9 era mimado pelas meninas da cozinha, o que despertava um pouquinho de ci\u00fames em Beto, mas algo normal, rs. &nbsp;A essa altura, elas j\u00e1 sabiam que eu odiava peixe e faziam sempre frango ou um bife ou pasta, que era um dos meus pratos favoritos.<\/p>\n\n\n\n<p>&nbsp;E foi no restaurante que eu trabalhava que provei o melhor queijo do mundo: o da Serra da Estrela. Era um queijo especial que serv\u00edamos como entrada para os clientes. Por fora, ele tinha uma consist\u00eancia mais dura e por dentro era muito suave. Entre uma ida e outra \u00e0s mesas eu me fartava de comer queijo com p\u00e3o, mas sem que ningu\u00e9m visse porque era para os clientes. Esse queijo&nbsp;portugu\u00eas era feito com leite&nbsp;de ovelha. As mais antigas men\u00e7\u00f5es a ele remontam ao s\u00e9culo XII, tornando-o o mais antigo dos queijos portugueses. \u00c9 um dos mais afamados queijos de ovelha de todo o mundo. Esteve presente nas mesas reais e foi mesmo evocado por Gil Vicente&nbsp;no s\u00e9culo XVI.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Como comer o Queijo Serra da Estrela? | Bom Proveito\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/vdL8fNC8uxM?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">O queijo da Serra da Estrela, o mais famoso de Portugal e que fui provar em Sintra. &#8220;Paix\u00e3o \u00e0 primeira mordida&#8221;<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>\u00c1s 16 horas, como sempre fazia, sa\u00ed para o meu descanso da tarde e deixei Beto dormindo no sal\u00e3o. Mal imaginava o que estava acontecendo no mundo, principalmente nos EUA. Quando sa\u00ed \u00e0s ruas, vi uma movimenta\u00e7\u00e3o estranha em alguns com\u00e9rcios que ainda mantinham as portas abertas, mas eu pensei que seria por causa de algum jogo de futebol- os portugueses, assim como os brasileiros, tamb\u00e9m amavam futebol.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando estava passando por um bar vi a cara de alguns turistas muito assustados e portugueses comentavam que era uma guerra mundial. Outros diziam que era o fim do mundo. Preocupado e curioso, decidi parar por alguns instantes e fiquei em choque com as imagens que eu assistia. As TVs portuguesas repetiam incessantemente o impacto dos avi\u00f5es contra as torres g\u00eameas, mas at\u00e9 ent\u00e3o, ningu\u00e9m sabia o que estava acontecendo. Nenhuma hip\u00f3tese podia ser descartada. Estar fora de casa naquele momento n\u00e3o era nada confort\u00e1vel. <\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"11 de Setembro: Como foi a sequ\u00eancia dos atentados ocorridos h\u00e1 20 anos\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/dKBKR2uj92s?feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\">Atentados de 11 de setembro nos EUA . O mundo parou diante da trag\u00e9dia<\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>VEM A\u00cd<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><strong>No pr\u00f3ximo epis\u00f3dio de Di\u00e1rio de um imigrante, saiba como os atentados \u00e0s torres g\u00eameas nos EUA impactaram no meu trabalho, no meu dia a dia, e a decis\u00e3o que tomei ap\u00f3s conversar com minha fam\u00edlia sem que D\u00e9a soubesse da verdade.<\/strong><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No epis\u00f3dio de hoje da s\u00e9rie Di\u00e1rio de um imigrante, minha ida at\u00e9 um dos cen\u00e1rios de loca\u00e7\u00f5es da miniss\u00e9rie &#8220;Os Maias&#8221; (TV Globo), a tentativa de conhecer o jornal mais famoso de Portugal, e o dia que o mundo parou diante dos atentados de 11 de setembro<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":490,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":true,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[123],"tags":[110,96],"class_list":["post-488","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-diario-de-um-imigrante","tag-lisboa","tag-sintra-2"],"yoast_head":"<!-- This site is optimized with the Yoast SEO plugin v24.7 - 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