{"id":913,"date":"2023-06-15T18:45:18","date_gmt":"2023-06-15T21:45:18","guid":{"rendered":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/?p=913"},"modified":"2023-06-16T11:07:08","modified_gmt":"2023-06-16T14:07:08","slug":"diario-de-um-imigrante-cap-15","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/desejodeviver.com.br\/index.php\/2023\/06\/15\/diario-de-um-imigrante-cap-15\/","title":{"rendered":"Di\u00e1rio de um imigrante &#8211; Cap 15"},"content":{"rendered":"<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" width=\"770\" height=\"515\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rbeir8inha3.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-914\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rbeir8inha3.jpg 770w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rbeir8inha3-300x201.jpg 300w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/rbeir8inha3-768x514.jpg 768w\" sizes=\"(max-width: 770px) 100vw, 770px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>\u00c9 imposs\u00edvel n\u00e3o se apaixonar por Portugal. Lisboa te brinda com um dos mais belos por do sol da Europa. Fonte: Pinterest<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>\u201cN\u00e3o sou nada. Nunca serei nada. N\u00e3o posso querer ser nada. \u00c0 parte isso,<\/strong>&nbsp;<strong>tenho em mim todos os sonhos do mundo\u201d.&nbsp;<\/strong>Come\u00e7o este cap\u00edtulo de meu di\u00e1rio virtual falando de&nbsp;<strong>SONHOS.<\/strong>&nbsp;Amo com toda for\u00e7a do mundo essa palavra, afinal, o que seria de nossas vidas se n\u00e3o sonh\u00e1ssemos? O sonho desta frase foi escrito por \u00c1lvaro de Campos, um dos heter\u00f4nimos do poeta portugu\u00eas Fernando Pessoa. \u00c9 minha singela homenagem a um dos maiores poetas do mundo, autor de grandes obras, e que ao lado de Lu\u00eds Vaz de Cam\u00f5es s\u00e3o dois dos principais expoentes da cultura portuguesa. E come\u00e7o por ele minha segunda experi\u00eancia em Portugal- a primeira havia sido em 2001, ano que decidi sair do Brasil para curar feridas internas que me atormentavam desde a adolesc\u00eancia.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas a situa\u00e7\u00e3o agora era outra. Est\u00e1vamos no in\u00edcio de 2009. O mundo ainda tentava entender os impactos da crise econ\u00f4mica mundial de 2008. Muitas economias do planeta haviam sido fortemente abaladas. Os pa\u00edses do continente europeu, incluindo a Irlanda, onde eu havia estado antes foram uns dos mais atingidos, e com Portugal, n\u00e3o era diferente. Mesmo assim, o pa\u00eds havia sido a \u00fanica op\u00e7\u00e3o que Fernando e eu t\u00ednhamos encontrado para n\u00e3o voltar ao Brasil. Est\u00e1vamos exatamente na metade do nosso visto de estudante em Dublin (v\u00e1lido por um ano), quando sentimos que seria imposs\u00edvel continuar ali sem trabalho. O dinheiro estava acabando e n\u00e3o ter\u00edamos mais de onde tirar.<\/p>\n\n\n\n<p>A volta antecipada ao Brasil seria a solu\u00e7\u00e3o mais segura. No entanto, a palavra seguran\u00e7a n\u00e3o constava do nosso dicion\u00e1rio. N\u00e3o que n\u00e3o gost\u00e1ssemos de estar seguros, pelo contr\u00e1rio, mas n\u00e3o deix\u00e1vamos que o medo nos impedisse de seguir adiante e de viver novas aventuras. At\u00e9 ali tinha sido daquela maneira- at\u00e9 a forma como nos conhecemos e come\u00e7amos nossa rela\u00e7\u00e3o havia sido movida por impulso, por desejo de acertar e de provar o diferente.<\/p>\n\n\n\n<p>A ida para Portugal foi decidida em instantes e sem tempo para pensar muito nos pr\u00f3s e contras. Fer sabia que eu estava arrasado. Mesmo sem trabalho em Dublin eu n\u00e3o queria sair do pa\u00eds. Era meu sonho estar ali e deix\u00e1-lo por falta de trabalho me causava uma sensa\u00e7\u00e3o de derrota, mas ningu\u00e9m no mundo poderia dizer que eu n\u00e3o havia lutado para ficar. Creio que dos meus amigos eu era o que mais sa\u00eda para buscar trabalho. Muitas vezes ia sozinho. Levantava cedo embaixo de chuva e voltava s\u00f3 \u00e0 noite para casa. Passava o dia com um sandu\u00edche no est\u00f4mago. Ia tamb\u00e9m para a biblioteca lutar por uma hora de internet livre para mandar meus curr\u00edculos, mas ningu\u00e9m estava contratando por causa da crise.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sorte, e talvez desta vez, por uma m\u00e3ozinha do destino, Fer havia enviado um e-mail para O Botic\u00e1rio, em Portugal, e havia tido uma resposta que nos deixou animados: ele poderia ser contratado experimentalmente para dar cursos de maquiagem para as clientes, j\u00e1 que um dos maquiadores da rede portuguesa, tamb\u00e9m brasileiro, estaria voltando para o Brasil. N\u00e3o havia promessa de que a vaga seria dele, mas Fer era muito bom em maquiagem e havia sido um destaque em Santa Catarina, estado onde mor\u00e1vamos antes de ter ido para Dublin.&nbsp;Outra coisa que pesava a favor era que o respons\u00e1vel pela contrata\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m era brasileiro. Em teoria, isso talvez pudesse favorec\u00ea-lo.<\/p>\n\n\n\n<p>Decidimos arriscar! Deixamos as malas maiores na casa de amigos e partimos com duas mochilas de costas para Portugal, j\u00e1 que a companhia \u00e1rea era low cost e n\u00e3o permitia bagagem extra. Isso para mim era um tormento, pois nuncaaaaaaaaaaaaa soube fazer uma mala com poucas roupas. J\u00e1 contei aqui nos cap\u00edtulos anteriores como foram as minhas malas para Portugal e Irlanda, inclusive, o epis\u00f3dio da imigra\u00e7\u00e3o em Dublin.<\/p>\n\n\n\n<p>Nossa rota estava tra\u00e7ada. \u00cdamos de avi\u00e3o de Dublin para Faro, e de Faro pegar\u00edamos um trem para Lisboa. Seria uma viagem bastante cansativa, mas ao mesmo tempo instigante, pois eu nunca havia andado tanto tempo de trem&nbsp;<strong>(essa \u00e9 uma das vantagens da Europa porque o sistema de trem funciona muito bem em v\u00e1rios pa\u00edses). &nbsp;&nbsp;&nbsp;<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A viagem at\u00e9 Faro, capital do Algarve, transcorreu bem. Chegamos \u00e0 cidade e o sol nos brindava. A fisionomia de Fer j\u00e1 era outra. Ele era solar, muito mais do que eu. Amo o sol, mas me identifico muito mais com a lua. Sempre fui da noite e ele do dia. \u00c9ramos realmente bastante diferentes, mas talvez nossas diferen\u00e7as era o segredo para que nossa rela\u00e7\u00e3o se mantivesse inabal\u00e1vel. J\u00e1 est\u00e1vamos indo para o terceiro ano juntos. Um completava o outro oferecendo o que faltava, e acima de tudo havia respeito, cumplicidade e torcida m\u00fatua. Era ineg\u00e1vel que depois de tantos meses vendo s\u00f3 chuva, passando frio e fugindo do vento gelado, estar numa cidade solar e linda nos enchia de esperan\u00e7as.<\/p>\n\n\n\n<p>Assim que chegamos em Faro sa\u00edmos para conhecer a cidade. O sol estava muito forte. Eu nem mais lembrava como era boa essa sensa\u00e7\u00e3o de sentir o sol e a brisa do mar juntos, e um vento sem ser gelado na cara.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"540\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-915\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro1.jpg 720w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>Ver o sol de novo me fazia muito bem depois de tanto frio, chuva e neve em Dublin<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"540\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro2.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-917\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro2.jpg 720w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro2-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"720\" height=\"540\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro4.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-918\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro4.jpg 720w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro4-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 720px) 100vw, 720px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Mesmo com a \u00e1gua gelada eu entrei no mar<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro3-1.jpg\" alt=\"\" class=\"wp-image-919\" width=\"842\" height=\"632\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro3-1.jpg 720w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/faro3-1-300x225.jpg 300w\" sizes=\"(max-width: 842px) 100vw, 842px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Ruas de Faro eram encantadoras para passear<\/strong> e quando chegava \u00e0 praia compensava qualquer caminhada <\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Faro havia nos presenteado com o seu melhor dia. Pisar na areia da praia de novo e sentir a \u00e1gua salgada do mar n\u00e3o tinha pre\u00e7o. Hav\u00edamos sa\u00eddo de Dublin e fazia frio, por isso, est\u00e1vamos com cal\u00e7a e jaqueta, mas, em Portugal, o tempo j\u00e1 come\u00e7ava a melhorar em mar\u00e7o. Apesar disso, a \u00e1gua ainda estava gelada. Eu conhecia bem Fer e sabia que ele nunca entraria na \u00e1gua com aquela temperatura, mas eu n\u00e3o tinha problema com isso.<\/p>\n\n\n\n<p>Como a praia estava vazia, n\u00e3o tive receio de ficar s\u00f3 de cuecas e de mergulhar rapidamente. N\u00e3o tinha toalhas e teria que me secar antes de entrar no trem, mas eu precisava daquele banho de mar. Eu acreditava muito no poder do mar. Era como um batizado, um encontro com as \u00e1guas. Talvez isso tenha a ver com o elemento do meu signo de C\u00e2ncer: \u00e1gua! Entrar naquele mar foi libertador, restaurador e m\u00e1gico. Foi como se eu pedisse para que as \u00e1guas daquele mar levassem para bem longe de mim todos os problemas. Eu pedia mais do que tudo uma oportunidade. Eu pedia para que o trabalho do Fer desse certo e que eu tamb\u00e9m conseguisse algo. Depois de tanta frustra\u00e7\u00e3o sem emprego na Irlanda era hora de sorrir de novo.<\/p>\n\n\n\n<p>Sempre tive muita liga\u00e7\u00e3o com o mar, por isso, ele acabou sendo algo recorrente nas minhas hist\u00f3rias como roteirista. Duas novelas me marcaram por diferentes raz\u00f5es porque ambas tinham cenas fortes com o mar. A primeira delas, um cl\u00e1ssico da teledramaturgia e que marcou uma gera\u00e7\u00e3o inteira: \u201cA Gata Comeu\u201d, de Ivani Ribeiro. At\u00e9 hoje, mais de 30 anos depois de sua exibi\u00e7\u00e3o, existem grupos na internet que comentam as cenas e organizam viagens para as loca\u00e7\u00f5es da hist\u00f3ria gravada no bairro carioca da Urca.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQE8kQ2w_sgr4A\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686842350451?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=9O6I-BAqoy65vtU2Voo8PooRZ7IVt3JgAIn4eJTseRA\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"842\" height=\"632\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>O bairro da Urca, no RJ ficou famoso por causa da novela e virou ponto tur\u00edstico. At\u00e9 hoje \u00e9 visitado por f\u00e3s saudosos. Foto: Eu prefiro<\/strong><\/em> <em>mel\u00e3o<\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Na trama, um grupo de crian\u00e7as e adultos ficavam perdidos numa ilha deserta ap\u00f3s a explos\u00e3o de uma lancha e eram dados como mortos. E ali naquela ilha come\u00e7ava a nascer o amor entre o casal protagonista J\u00f4 Penteado&nbsp;(Christiane Torloni) e&nbsp;F\u00e1bio (Nuno Leal Maia). A qu\u00edmica saltava da tela. &nbsp;Acho que meu esp\u00edrito aventureiro nasceu ali com aquelas crian\u00e7as. Na \u00e9poca, eu tamb\u00e9m era uma delas, e queria ser um &#8220;Curumim&#8221;- nome dado ao grupinho secreto deles. Anos depois, levei a ideia do clubinho para o meu projeto de s\u00e9rie de TV, &#8220;O Talism\u00e3&#8221;, que fala sobre o bullying. &nbsp;As aventuras daquela turminha na ilh me fazia querer ser um deles.<\/p>\n\n\n\n<p>D\u00e9cadas depois, em 2001, eu consegui acompanhar apenas o comecinho da novela \u201cPorto dos Milagres\u201d, de Aguinaldo Silva, pois estava de viagem marcada para a Irlanda, mas o in\u00edcio da hist\u00f3ria que mostrava um naufr\u00e1gio em alto mar nunca mais saiu da minha cabe\u00e7a. Foi algo impactante. Isso se for para citar apenas novelas porque era ineg\u00e1vel tamb\u00e9m na minha mem\u00f3ria afetiva as lembran\u00e7as de Titanic. Mesmo amando o mar, eu sempre tive muito respeito e medo dele. N\u00e3o me atrevo a nadar at\u00e9 hoje se n\u00e3o posso sentir os meus p\u00e9s. Nisso, eu necessito de seguran\u00e7a. Tenho medo das ondas me levarem para o fundo.<\/p>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-4-3 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"Chamada da Estreia de &#039;&#039;A Gata Comeu&#039;&#039;  em 1985 (Audio HQ)\" width=\"960\" height=\"720\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/q-CA6DJR5-0?start=1&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>A Gata Comeu era foi uma novela que fez parte da minha adolesc\u00eancia e por isso ficou marcada <\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<figure class=\"wp-block-embed aligncenter is-type-video is-provider-youtube wp-block-embed-youtube wp-embed-aspect-16-9 wp-has-aspect-ratio\"><div class=\"wp-block-embed__wrapper\">\n<iframe title=\"porto dos milagres guma se encanta por livia\" width=\"960\" height=\"540\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/4rK_pMmVWBI?start=42&#038;feature=oembed\" frameborder=\"0\" allow=\"accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" allowfullscreen><\/iframe>\n<\/div><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>O naufr\u00e1gio em alto-mar de Porto dos Milagres nunca mais saiu das minhas lembran\u00e7as<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure>\n\n\n\n<p>Estar em Faro mesmo que por poucas horas me fez muito bem. Assim como Fer eu estava precisando tirar aquela cor branca dos vampiros (mesmo idolatrando as hist\u00f3rias deles). O banho de mar e de sol haviam me dado uma energia extra. Era hora de pegar o trem e seguir viagem. E era justamente ali que come\u00e7aria nossa grande aventura. Nossa alma cigana havia nos levado para outro pa\u00eds. Por sorte n\u00e3o ter\u00edamos problema com o idioma, algo que j\u00e1 acontecia em Dublin, mas era uma total loucura chegar a um outro pa\u00eds sem nem ter onde ficar. \u00cdamos dormir na rua????<\/p>\n\n\n\n<p>Acho que naquela \u00e9poca realmente eu estava um pouco perturbado (risos), pois mesmo sendo t\u00e3o aventureiro eu n\u00e3o podia ser t\u00e3o irrespons\u00e1vel de ir para um outro pa\u00eds sem nenhum lugar para dormir. Ou talvez eu recorreria \u00e0 m\u00e1gica de Monteiro Lobato e ia usar o p\u00f3 de pirlimpimpim da Em\u00edlia para me teletransportar para diferentes lugares? Magia tinha limite. O problema era eu, pois eu n\u00e3o tinha limite.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQFnyx6y0cVfmQ\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840486830?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=a8mOcFaZU6bDX2cI-FGf4NwnGljQRpkhh9MZ2kdaiYY\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"840\" height=\"630\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Viagem de trem de Faro \u00e0 Lisboa. Aqui come\u00e7ava minha nova jornada de aventuras<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><strong>DICA:<\/strong>&nbsp;<strong>Sonhar \u00e9 bom, nos faz bem e nos d\u00e1 motiva\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m precisamos manter os p\u00e9s no ch\u00e3o quando estamos fora de nossa zona de conforto, e isso eu fui aprender dia ap\u00f3s dia com os percal\u00e7os que a vida de imigrante foi colocando diante dos meus olhos e de minha caminhada. Hoje, faria muitas coisas diferentes. O primeiro conselho que daria para a pessoa que deseja viajar seria o de fazer um planejamento e ter o m\u00ednimo de estrutura e seguran\u00e7a para desembarcar em um pa\u00eds estranho.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>A viagem at\u00e9 Lisboa transcorreu normalmente. O sol e o calor que haviam feito durante o dia nos deixaram cansados e acabamos dormindo um no ombro do outro. Acordamos com o trem parando na esta\u00e7\u00e3o do&nbsp;Oriente, em Lisboa, inaugurada em 1998, para receber a Expo 98, que revolucionou a capital portuguesa em quest\u00e3o de modernidade (falarei sobre isso em outro cap\u00edtulo).<\/p>\n\n\n\n<p>Fora da esta\u00e7\u00e3o realmente caiu a ficha. Precis\u00e1vamos de um lugar para dormir. Isso era o mais importante e urgente. Fernando havia pegado com o pessoal do escrit\u00f3rio somente o local onde seria a entrevista na pr\u00f3xima semana. Viajamos numa sexta-feira de manh\u00e3 e a entrevista dele seria na segunda-feira \u00e0 tarde. Ter\u00edamos s\u00f3 dois dias at\u00e9 a data de sua sele\u00e7\u00e3o. Talvez o que nos deixasse um pouquinho mais tranquilo era o fato de ainda ter algumas economias. Ent\u00e3o, na pior das situa\u00e7\u00f5es, \u00edamos buscar uma pens\u00e3o ou um hotel barato. Dormir na rua n\u00e3o era uma op\u00e7\u00e3o. &nbsp;<\/p>\n\n\n\n<p>Eu que j\u00e1 havia vivido em uma pens\u00e3o horr\u00edvel em S\u00e3o Paulo sabia que a experi\u00eancia n\u00e3o era muito agrad\u00e1vel.\u00a0Em meus devaneios de roteirista pensava que teria a sorte de morar em &#8220;pens\u00f5es amig\u00e1veis&#8221;, como havia visto em muitas novelas, como em \u201cFera Radical\u201d ou \u201cCora\u00e7\u00e3o de Estudante\u201d. Nestas tramas, a conviv\u00eancia sempre era muito pac\u00edfica e deliciosamente gostosa de se assistir, mas eu vivia algo real, e muitas vezes, a realidade se pintava muito diferente da fic\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter size-full\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" width=\"923\" height=\"703\" src=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/pensaolurdes.jpeg\" alt=\"\" class=\"wp-image-926\" srcset=\"https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/pensaolurdes.jpeg 923w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/pensaolurdes-300x228.jpeg 300w, https:\/\/desejodeviver.com.br\/wp-content\/uploads\/2023\/06\/pensaolurdes-768x585.jpeg 768w\" sizes=\"(max-width: 923px) 100vw, 923px\" \/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Pens\u00e3o de Dona Lurdes (Cleyde Blota) era um al\u00edvio c\u00f4mico em &#8220;Fera Radical&#8221;. Eu achava que no exterior encontraria algo parecido. Ledo engano!<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Pois bem, decidimos pegar um \u00f4nibus e ir para o bairro onde ficava o escrit\u00f3rio do O Botic\u00e1rio, em Lisboa. A gente n\u00e3o tinha nenhum outro lugar em mente. Desde que sa\u00ed de Portugal nunca mais havia falado com meus amigos do restaurante e nem com o pessoal da casa onde havia vivido, e n\u00e3o porque eu n\u00e3o quisesse, mas por circunst\u00e2ncias da vida que nos separam das pessoas sem que a gente perceba. Tamb\u00e9m agora eu vivia uma outra realidade: havia sa\u00eddo dali apaixonado por uma mulher: D\u00e9a, e agora retornava com um homem: Fer. Era tudo muito complexo e eu preferia evitar, de momento, aquele encontro. N\u00e3o sabia como eles reagiriam.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquela tarde n\u00f3s fomos percorrendo as ruas do bairro sem nenhuma dire\u00e7\u00e3o em concreto. J\u00e1 estava anoitecendo e a preocupa\u00e7\u00e3o come\u00e7ava a bater mais forte. Foi ent\u00e3o que algo me chamou aten\u00e7\u00e3o: havia um ponto de \u00f4nibus com v\u00e1rios papeizinhos colados. O conte\u00fado deles era diferente. Havia desde pessoas oferecendo servi\u00e7os de limpeza, de pintura e de bab\u00e1 at\u00e9 quartos compartidos. Deus nunca tinha nos deixado at\u00e9 ali e n\u00e3o seria agora que isso aconteceria. Sem pensar, decidimos ligar para um dos quartos que estava no an\u00fancio. Um rapaz atendeu e percebi que era brasileiro pelo acento. Ele foi extremante simp\u00e1tico comigo e combinamos de ver o quarto na mesma hora.<\/p>\n\n\n\n<p>Por sorte, est\u00e1vamos muito perto de sua casa. Independente de como fosse o lugar j\u00e1 t\u00ednhamos decidido que \u00edamos ficar ali por um tempo at\u00e9 a gente conseguir se achar melhor na cidade. O rapaz que estava alugando o quarto, Leonardo, L\u00e9o, era bastante jovem.&nbsp;Trabalhava como gar\u00e7om e era uma esp\u00e9cie de gerente da rep\u00fablica. Na casa, al\u00e9m dele, viviam mais outros 13 meninos, todos brasileiros, e nenhum deles com documenta\u00e7\u00e3o (trabalhavam no mercado negro, algo que \u00e9 ilegal, mas que muitos empres\u00e1rios faziam para fugir dos impostos e ao mesmo tempo era o trabalho que restava para quem n\u00e3o tinha cidadania).<\/p>\n\n\n\n<p>Confesso que fiquei um pouco constrangido em viver ali porque como j\u00e1 tinha tido tantas experi\u00eancias negativas no passado com flatmates n\u00e3o sabia como seria dividir uma casa com 13 homens h\u00e9teros. O que me deixava pensativo era que fossem homof\u00f3bicos, mas isso caiu por terra logo de cara porque L\u00e9o insistiu para que jant\u00e1ssemos com eles e ali mesmo eles fizeram quest\u00e3o de dizer que n\u00e3o havia problema nenhum da gente ser um casal. &nbsp;Foi legal isso partir deles, pois mostrava uma evolu\u00e7\u00e3o com rela\u00e7\u00e3o ao preconceito. Nunca vou me esquecer daquele macarr\u00e3o \u00e0 bolonhesa que ele nos serviu. Sem d\u00favida, foi o melhor macarr\u00e3o que comi na minha vida.<\/p>\n\n\n\n<p>Na verdade, n\u00e3o sei se estava bom ou \u00e9 porque a gente tava com muita fome e saudade de comer algo que me lembrava a comida da minha m\u00e3e, pois todo s\u00e1bado na minha casa era dia de macarronada. Era minha heran\u00e7a italiana falando mais alto.<\/p>\n\n\n\n<p>O quarto era simples, mas tinha uma cama de casal. Est\u00e1vamos t\u00e3o cansados que no s\u00e1bado dormimos at\u00e9 \u00e0s 14h. Da\u00ed acordamos e fomos numa padaria tomar caf\u00e9. Eu j\u00e1 fui pro ataque aos doces portugueses. Sabia que eles seriam a minha tenta\u00e7\u00e3o ali naquele pa\u00eds e eu voltaria a engordar se n\u00e3o me cuidasse, mas era imposs\u00edvel n\u00e3o se encantar pela maravilhosa e rica culin\u00e1ria portuguesa.<\/p>\n\n\n\n<p>Minha m\u00e3e j\u00e1 havia feito uma encomenda para mim: a de quando eu voltasse ao Brasil desse um jeito de levar na mala novos doces de Portugal (ela tinha se apaixonado pelos pasteizinhos de nata que eu havia levado da primeira vez, mas, agora, eu levaria os da f\u00e1brica original, em Bel\u00e9m, j\u00e1 que ela merecia).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQFtvLesWCe78Q\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840566426?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=INW3WBho6JCYOkInZZLmfxymIXwPe-wla1wnaEJ36pk\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"843\" height=\"632\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong>Entrada principal da f\u00e1brica , fundada em 1837.<\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQFnJt8mAbfISg\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840615497?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=kiPKFu5xJHLq6s27n1QT-E2iDiOGFDmBZXQ8qFhdcG0\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"842\" height=\"1123\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>A felicidade de quem est\u00e1 prestes a comer uma das coisas mais t\u00edpicas de Portugal: os pasteizinhos de Bel\u00e9m<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQFKelhuEpLS2A\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686841854195?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=RbJRSrpu5YUnUX4dg7MVUqsAFXmrSdTHk7adsCdLeVw\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Imagem interna da f\u00e1brica<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQHl3wPkGawFFA\/article-inline_image-shrink_1000_1488\/0\/1686841933219?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=21hAVtMEP-F1BQmCPjbuGWDrtSkJX73wn5drB6f9fWs\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"838\" height=\"558\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Pasteizinhos diretos da f\u00e1brica s\u00e3o inigual\u00e1veis<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Como lhes disse anteriormente, minha m\u00e3e, impossibilitada pelas artimanhas do destino, teve muitos dos seus sonhos interrompidos aos 36 anos ap\u00f3s ser atropelada num racha entre dois motociclistas. Com isso, perdeu o movimento dos p\u00e9s, mas nem por isso, deixou de sonhar. Ela acreditava que um dia ainda teria condi\u00e7\u00f5es de fazer um cruzeiro com toda fam\u00edlia e conhecer os lugares que s\u00f3 via pelas novelas. Ent\u00e3o, enquanto n\u00e3o podia realizar seu sonho, ela os depositava em mim. Ela era uma eterna aventureira. Numa compara\u00e7\u00e3o com uma personagem poder\u00edamos cham\u00e1-la de &#8220;Peter Pan&#8221;, no caso, era a nossa &#8220;Peter Pan de saias&#8221; .(ainda lhe dedicarei um cap\u00edtulo especial no ano de 2015, o pior ano de minha vida).<\/p>\n\n\n\n<p>Voltando \u00e0 nossa rotina portuguesa, passamos bem o final de semana conhecendo a \u00e1rea que est\u00e1vamos instalados. Era um bairro bastante aconchegante e familiar, mas uma das coisas que mais me chamou aten\u00e7\u00e3o desde minha primeira vez, e agora de novo, era a arquitetura das casas em Lisboa. A maioria das pessoas viviam em pequenos apartamentos, e as terra\u00e7as eram incr\u00edveis com muitas flores, al\u00e9m de roupas penduradas num varal improvisado, o que dava um colorido todo especial e charmoso \u00e0 cidade. Apesar de n\u00e3o conhecer aquelas pessoas, era como se estiv\u00e9ssemos mais pr\u00f3ximos delas, pois o simples fato de sa\u00edrem para as sacadas para recolher e estender suas roupas ou regar as plantas j\u00e1 nos aproximava.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQHnfwaezSbDKA\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840755497?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=MrnxqmiHh1yNhZV1CmbXzRjdd4yWeU_wnpmC52fPfHI\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"632\" height=\"944\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Imagem t\u00edpica das casinhas em Lisboa<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQF7zVRlI7Vvhg\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840766586?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=iEpDoN8h0LGXOnBdAJ8BXUw88z2Z4j0P1LInChcHW5s\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"3\" height=\"1\"\/><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Dava uma vontade tremenda de falar com aquela gente, saber curiosidades sobre as suas vidas, enfim, fazer amizade. N\u00e3o posso negar minha veia jornal\u00edstica. Eu amava descobrir hist\u00f3rias de vida entre pessoas desconhecidas. Sempre me considerei um rep\u00f3rter de rua, e Lisboa era um convite para quem amava boas hist\u00f3rias.&nbsp;<strong>A cidade por si s\u00f3 j\u00e1 era uma atra\u00e7\u00e3o \u00e0 parte, e n\u00e3o por acaso, hoje, \u00e9 considerada um dos melhores lugares do mundo para se viver em termos de qualidade de vida. \u00c9 por isso que Portugal se transformou nos \u00faltimos anos como um dos principais destinos de imigrantes brasileiros que tentam a sorte em outro pa\u00eds. Muitos v\u00e3o para estudar, trabalhar, e outros para viver a aposentadoria.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p>E assim, entre muitos passeios pela vibrante Lisboa, passamos nosso final de semana. N\u00e3o sa\u00edmos muito da regi\u00e3o onde est\u00e1vamos hospedados, mas nem precisava porque como n\u00e3o conhec\u00edamos nada, tudo para n\u00f3s era novidade. Est\u00e1vamos ansiosos mesmo pela chegada da segunda-feira quando Fer faria a entrevista em O Botic\u00e1rio e saber\u00edamos nosso futuro. Ou ter\u00edamos um pouco mais de al\u00edvio com um dos dois trabalhando ou nossa luta teria que ser redobrada para sobreviver ali at\u00e9 o final do nosso visto.<\/p>\n\n\n\n<p>Passei toda segunda-feira apreensivo e preocupado, afinal, era uma grande oportunidade para Fer. Era vez dele brilhar e eu como namorado tinha que estar ao seu lado apoiando-o em todas suas conquistas, afinal, assim se constru\u00edam rela\u00e7\u00f5es dur\u00e1veis e est\u00e1veis. Essa era a li\u00e7\u00e3o que havia aprendido com meus pais que estavam casados h\u00e1 quase 40 anos. Quando minha m\u00e3e mais necessitou de apoio, de ajuda e de algu\u00e9m forte, que foi nos anos p\u00f3s-acidente e at\u00e9 seu \u00faltimo respiro, era meu pai que estava ao seu lado. Isso era amor, e era nisso que eu me apegava para construir a minha hist\u00f3ria depois de tantas decep\u00e7\u00f5es que havia tido.<\/p>\n\n\n\n<p>Naquele dia o tempo n\u00e3o passava. J\u00e1 tinha caminhado, andado por quase todo o bairro, ido ao mercado, e nada do Fer voltar da entrevista. Talvez a demora fosse um bom sinal, pois se uma sele\u00e7\u00e3o dura muito tempo \u00e9 porque os recrutadores est\u00e3o gostando do candidato, e nesse quesito Fer era PHD. Tinha carisma de sobra e tenho certeza que se o tivessem colocado para fazer uma maquiagem como prova ele teria tirado 10 na prova, pois havia se transformado num excelente maquiador e feito, inclusive, workshops com um dos mestres da maquiagem brasileira: Fernando Torquato.<\/p>\n\n\n\n<p>Quando escutei o barulho da fechadura do quarto se abrindo saltei da cama em um s\u00f3 pulo. Ele mesmo que tentasse esconder ou simular tristeza n\u00e3o era um bom ator. Sua cara revelava seu estado de esp\u00edrito, e a imagem que eu via em seu semblante era de felicidade. Ele correu at\u00e9 mim, me abra\u00e7ou fortemente e me disse ao p\u00e9 do ouvido: \u201cD\u00e9, a gente conseguiu. Brigadooo por tudo\u201d. Ouvir aquilo me emocionava, pois me fazia sentir parte de sua vida. Ele tinha usado a frase &#8220;a gente conseguiu&#8221; e isso dizia muito sobre n\u00f3s. \u00c9ramos um casal.<\/p>\n\n\n\n<p>Lut\u00e1vamos juntos e qualquer derrota ou vit\u00f3ria, o outro estava do lado, e ele reconhecia em todo aquele processo que eu havia deixado o meu sonho do interc\u00e2mbio da Irlanda para ajud\u00e1-lo a viver o seu sonho em Portugal. Por outro lado, ele havia decidido viajar comigo para fazer aquele interc\u00e2mbio no seu melhor momento profissional no Brasil. Era uma troca de a\u00e7\u00f5es e de sentimentos, e era isso que nos unia e nos deixava fortes.<\/p>\n\n\n\n<p>Mas era hora de comemorar. Merec\u00edamos aquele momento. \u201cRoubamos\u201d duas ta\u00e7as de vinho do arm\u00e1rio da cozinha, passamos no mercado e compramos p\u00e3o, queijos, frutos secos e algumas frutas, e claro, que alguns docinhos de sobremesa (essa parte ficava sempre para mim, pois Fer n\u00e3o gostava muito de doces e eu sempre acabava comendo o meu e o dele tamb\u00e9m). T\u00ednhamos que ir para um lugar especial. Eu queria apresentar a ele um dos cart\u00f5es postais mais famosos de Portugal, reconhecido mundialmente pela sua beleza: o rio Tejo.<\/p>\n\n\n\n<p>Aquele brinde tinha que ser em um lugar especial. Em termos de compara\u00e7\u00e3o poder\u00edamos pensar que se estiv\u00e9ssemos no Rio de Janeiro, por exemplo, o brinde seria aos p\u00e9s do Cristo Redentor; em Paris, de frente \u00e0 Torre Eiffel. Se volt\u00e1ssemos para a Irlanda, claro, sem d\u00favida, seria na Spire, que era o ponto de chegadas e partidas naquela cidade e o nosso cantinho especial.<\/p>\n\n\n\n<p>E em Portugal, a beleza do rio Tejo a qualquer hora do dia era algo inspirador e nos deixa sem respira\u00e7\u00e3o. E quando se soma ao por do sol o cen\u00e1rio ent\u00e3o era um brinde ao deleite, algo de cinema, realmente. De qualquer \u00e2ngulo que olh\u00e1ssemos ser\u00edamos brindados com sua beleza estonteante. Os raios solares refletindo em suas \u00e1guas deixavam tudo ainda mais belo. Escolhemos a zona ribeirinha do Bel\u00e9m porque a vista desde ali era uma das melhores. T\u00ednhamos levado uma toalha e decidimos fazer nosso brinde ali mesmo.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQHbnKmKEvWVHQ\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686841172211?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=YcTHiEuwpblJli1t670r15NarIKgIM2lmJ_fwr6hk_A\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Em qualquer \u00e2ngulo que voc\u00ea olhar o por do sol em Lisboa \u00e9<\/strong><\/em> m\u00e1gico<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQGuRehp29raIw\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686841186173?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=-z6BMX-qfm2zvxIqay-pSGgcz5YdUbHlWBv9oOnNWjI\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\">E foi num destes pontos que fizemos nosso brinde<\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter\"><img decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQHCsIItE-O_GA\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686841209219?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=dO8lMsVJRdUlQSQ9uGvzGX5ORRlyzDmExkMFjZoP4ww\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Era o recome\u00e7o em outro pa\u00eds. T\u00ednhamos que estar preparados para as aventuras e desventuras que essa experi\u00eancia nova nos traria<\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Antes de tomar o vinho ficamos alguns minutos em sil\u00eancio. Era o nosso tempo para agradecer. A gente sabia que n\u00e3o tinha sido f\u00e1cil chegar at\u00e9 ali, e ne imagin\u00e1vamos o que ainda passar\u00edamos de prova\u00e7\u00e3o, e elas vieram, mas est\u00e1vamos juntos e com sa\u00fade, e isso \u00e9 o que importava. Fizemos nosso brinde e ficamos novamente em sil\u00eancio s\u00f3 olhando a beleza daquele lugar. A vida, muitas vezes, \u00e9 muito f\u00e1cil. Somos n\u00f3s quem a tornamos dif\u00edceis.<\/p>\n\n\n\n<p>Bastava refletir um pouco sobre tudo o que estava acontecendo. Uma porta havia sido fechada em Dublin, e eu estava triste por isso, natural, mas ao mesmo tempo, outra janela havia sido aberta em Portugal, e desta janela outros horizontes poderiam ser vistos. Quem ousaria nos dizer que n\u00e3o \u00edamos conquistar nosso espa\u00e7o em Portugal? E o que nos impediria de um dia voltar a Dublin e terminar o nosso interc\u00e2mbio?<\/p>\n\n\n\n<p>Hav\u00edamos feito o mais dif\u00edcil que era ter tomado a decis\u00e3o de sair de casa. O restante das coisas viria por consequ\u00eancia. Era momento de celebrar e de agradecer por estar ali. Quantos pessoas gostariam de ter a oportunidade de ter um minuto que fosse de suas vidas num pa\u00eds diferente vendo um por do sol, e n\u00f3s hav\u00edamos chegado at\u00e9 ali. Quem diria que n\u00e3o viriam outros pa\u00edses pela frente??? E conhecendo minha alma cigana como voc\u00eas j\u00e1 conhecem sabe que isso era algo muito poss\u00edvel de ser realizado.<\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p class=\"has-text-align-center\"><strong>UMA REVISTA PRESTES A CAIR NO BUEIRO ERA A MENSAGEM QUE O DESTINO ME ENVIAVA QUE MINHA HORA ESTAVA CHEGANDO<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p>Com o passar dos dias, eu via nitidamente uma mudan\u00e7a no comportamento de Fer. Ele estava muito mais leve e feliz. O trabalho estava lhe fazendo muito bem. Ele tinha conhecido pessoas novas, ia a lojas diferentes e n\u00e3o tinha nenhuma rotina. A ideia era que come\u00e7asse a viajar em breve para outras cidades. Tudo estava indo maravilhosamente bem para ele, mas eu tamb\u00e9m queria conquistar minhas coisas. Eu tamb\u00e9m merecia ter o meu momento.<\/p>\n\n\n\n<p>J\u00e1 tinha percorrido diferentes regi\u00f5es daquela cidade em busca de trabalho. O problema \u00e9 que as vagas estavam muito restritas por causa da crise. Eles s\u00f3 contratavam algu\u00e9m caso alguma pessoa estivesse se desligando do trabalho. Ent\u00e3o, era uma substitui\u00e7\u00e3o, e para essa vaga sempre haviam muitos candidatos de reserva. Pesava contra mim o fato de eu ser imigrante sem documenta\u00e7\u00e3o. Fer ainda havia tido a sorte de ter um contrato de trabalho tempor\u00e1rio, mas eu n\u00e3o perdia a esperan\u00e7a de encontrar algo, e isso aconteceu inesperadamente.<\/p>\n\n\n\n<p>Estava voltando para casa depois de mais um dia de intensas buscas- havia ido distribuir curr\u00edculos no Centro Comercial Colombo- o maior shopping center que eu j\u00e1 havia entrado na minha vida. Tinha percorrido todas as lojas e deixado meu curr\u00edculo naquelas que eu via plaquinhas de busca de empregados (imprimir curr\u00edculo para ser jogado fora n\u00e3o era a solu\u00e7\u00e3o porque at\u00e9 mesmo a impress\u00e3o era cara).<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQGm6IopOM6Bzg\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686840872947?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=miyqDisP1T1LR6f0cnBMdgO1BPVEGf9DeQVttm75svc\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"840\" height=\"630\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><em><strong>Centro Comercial Colombo impressionava pelo tamanho e preciosidade de suas lojas <\/strong><\/em><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p>Naquela tarde eu voltava para casa bem desanimado, pois era humano e tinha meus momentos de queda. Ia andando pela rua um pouco cabisbaixo quando olhei para o ch\u00e3o e vi uma revista jogada. Eu sempre amei ler, seja jornal, revista, qualquer coisa que caia nas minhas m\u00e3os eu leio. Tenho que abrir um par\u00eanteses e contar algo engra\u00e7ado.<\/p>\n\n\n\n<p>Desde muito pequeno peguei a mania de ler no banheiro. Minha m\u00e3e deixava gibis ali, principalmente os da &#8220;Turma da M\u00f4nica&#8221;. Eram os meus preferidos. E isso era um pretexto para passar mais tempo na \u201ccasa de banho\u201d, como os portugueses chamam o banheiro.<\/p>\n\n\n\n<p>Vendo a revista prestes a cair no bueiro n\u00e3o pensei duas vezes e a recolhi rapidamente. Era uma \u201crevista maltratada\u201d. Seguramente algu\u00e9m a havia perdido e ela acabou indo parar ali. Estava um pouco rasgada, mas ainda dava para ler o seu conte\u00fado. Era uma revista de fofocas como as que t\u00ednhamos antes no Brasil falando dos artistas, dos cap\u00edtulos das novelas, e eu sempre gostava de ler.<\/p>\n\n\n\n<p>No caso de Portugal, eu n\u00e3o tinha tido esse interesse de ler revistas dali porque n\u00e3o conhecia as novelas portuguesas e muito menos os atores, exceto o gal\u00e3 Ricardo Pereira, que j\u00e1 havia feito alguns trabalhos no Brasil. Por\u00e9m, uma mat\u00e9ria na capa me chamou a aten\u00e7\u00e3o. Falava da influ\u00eancia das novelas brasileiras em Portugal e de como o mercado de teledramaturgia havia se aquecido nos \u00faltimos anos com a ida de muitos profissionais brasileiros para Portugal. ra\u00e7as a eles, o pa\u00eds, agora, havia ganhado o status de grande produtor de telenovelas- uma das paix\u00f5es dos portugueses, assim como dos brasileiros. A reportagem citava ainda que um brasileiro estava por tr\u00e1s de uma das emissoras que havia come\u00e7ado a investir em telenovelas. N\u00e3o pensei duas vezes. Era o universo me dando uma oportunidade.<\/p>\n\n\n\n<p>Eu n\u00e3o acreditava muito em coincid\u00eancias, mas sim, em destino. E eu sabia que Deus havia reservado algo para mim depois de tantas prova\u00e7\u00f5es. Fiz um e-mail caprichado, coloquei ali meu cora\u00e7\u00e3o, e para minha surpresa na mesma tarde a secret\u00e1ria dele me ligou marcando uma entrevista.<\/p>\n\n\n\n<p>Seria um sonho??? Se fosse, eu n\u00e3o queria despertar. Talvez eu tive que deixar meu sonho do interc\u00e2mbio na Irlanda porque Deus tinha algo reservado para mim em Portugal, e essa resposta veio justamente de algo descartado no lixo. Muitas vezes, a resposta para nossas quest\u00f5es vem de onde menos esperamos e eu fui encontr\u00e1-la justamente num bueiro. Isso provava que Deus trabalhava na minha vida em sil\u00eancio. Como comecei esse cap\u00edtulo com sonho vou termin\u00e1-lo assim: sonhando! Sempre haver\u00e1 um novo amanh\u00e3 e um novo recome\u00e7o para colocarmos nossos sonhos em a\u00e7\u00e3o.<\/p>\n\n\n<div class=\"wp-block-image\">\n<figure class=\"aligncenter is-resized\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" src=\"https:\/\/media.licdn.com\/dms\/image\/D4E12AQE_KLvTohwukQ\/article-inline_image-shrink_1500_2232\/0\/1686841270814?e=1692230400&amp;v=beta&amp;t=7gR6KUzdxJ0SrvKPQsO7oLAMpuyrRbpUBmIsrtAqE6s\" alt=\"N\u00e3o foi fornecido texto alternativo para esta imagem\" width=\"836\" height=\"559\"\/><figcaption class=\"wp-element-caption\"><strong><em>O sol sempre nasce para todos. Era nessa premissa que eu me apegava para continuar sonhando com um novo amanhecer, Todo dia era dia para construir uma nova hist\u00f3ria<\/em><\/strong><\/figcaption><\/figure><\/div>\n\n\n<p><\/p>\n\n\n\n<p><strong>VEM A\u00cd: &nbsp;Como ser\u00e1 que foi esse meu encontro com esse executivo numa TV portuguesa e por que fui parar em Cascais? Conhe\u00e7a o desfecho desta hist\u00f3ria e muito mais no pr\u00f3ximo cap\u00edtulo. Contarei sobre uma reviravolta na minha trajet\u00f3ria at\u00e9 ali, o furto de dinheiro dentro de minha casa, nossa mudan\u00e7a de cidade, e o come\u00e7o de uma nova jornada cheia de descobertas incr\u00edveis.<\/strong><\/p>\n\n\n\n<p><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Neste cap\u00edtulo, conhe\u00e7a a raz\u00e3o que me fez abandonar o interc\u00e2mbio na Irlanda, em 2009, e me mudar novamente para Portugal, no caso, para Lisboa (j\u00e1 havia morado no pa\u00eds em 2001). 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Vivo atualmente em Barcelona onde trabalho como correspondente internacional, mas j\u00e1 morei em outros pa\u00edses, como Portugal, Irlanda, EUA e It\u00e1lia onde sempre estive envolvido com projetos na \u00e1rea de comunica\u00e7\u00e3o- minha grande paix\u00e3o-. Como roteirista, destaco a coautoria na sinopse e no 1 cap\u00edtulo da novela \"O S\u00e9timo Guardi\u00e3o\" (TV Globo\/2019), o document\u00e1rio \"Quem somos n\u00f3s?\", sobre exclus\u00e3o social, e o curta-metragem \"As cartas de Sofia\". Como rep\u00f3rter, trabalhei em grandes grupos de comunica\u00e7\u00e3o no Brasil, como RBS, RAC e RIC. Ganhei o pr\u00eamio Yara de Comunica\u00e7\u00e3o (categoria impresso) em 2013 com uma reportagem sobre as diferentes fam\u00edlias e hist\u00f3rias de vida \u00e0s margens do rio Piracicaba (SP). 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